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É Pecado Ainda Gostar de Woody Allen?

Extremistas de plantão e justiceiros sociais em geral hão de erguer seus braços em protestos contra mim. Parentes e amigos hão de me bloquear nas redes sociais. Cogito até que ocorra uma demissão. A minha, no caso. Mesmo assim, assumindo todas essas possíveis consequências, farei a declaração a seguir:

- Assistirei ao mais recente filme do Woody Allen.

Pronto. Aposto que um basto número de leitores acaba de abandonar o texto para procurar algo mais útil a se fazer, como falar mal de indolentes blogueiros na internet, a começar por este que vos escreve. Mas sim, afirmo estoicamente que assistirei também ao próximo filme que Woody Allen fizer. Além disso, estou cogitando reservar um tempo livre para rever toda a sua filmografia. Se você é um leitor menos radical e decidiu por percorrer seus olhos até essas mal traçadas findarem, explico abaixo minhas razões.

Não vou mentir. A polêmica em voga nos últimos dias envolvendo o diretor me afetou. Sempre fui fã de Woody Allen e, quando tom…
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O Dia Em Que Topei Com João Gilberto Em Calgary

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Dia desses resolvi dar uma volta por alguns lugares que ainda não conhecia em Calgary. Escolhi primeiro caminhar por Inglewood, o bairro mais antigo da cidade. Lá fica a atual Ninth Avenue, que foi por algum tempo a principal avenida daqui. Hoje é uma região cheia de lojas e galerias de arte, artesanato e antiguidades. Além de já ter sido definida como o centro da música local por conta de seus bares e restaurantes e os festivais promovidos ao longo do ano. Em resumo, lugar interessantíssimo para um passeio despretensioso. Então, me fui.


Já calcorreando pelas charmosas calçadas do tal bairro, um som familiar me alcançou. Uma música que eu sabia que conhecia, mas levei algum tempo para reconhecer. Mais ou menos como quando você topa com um conhecido na rua e por um segundo não se lembra de onde o conhece. Foi o prazo de entrar a voz de João Gilberto, cobrindo o solo de saxofone:

- Um cantinho, um violão...

Era Corcovado, clássico de Tom Jobim interpreta…

Os Meus Amigos de Infância

Dia desses um colega de trabalho me perguntou se eu conversava frequentemente com meus amigos do Brasil. Respondi que sim, que ainda mantinha certo contato, porém muito menos do que eu gostaria. Ele emendou outra pergunta: e com seus amigos de infância?

Quem me conhece sabe que já morei em muitos lugares diferentes, permanecendo em média por quatro anos em cada cidade. No início carregado pelo meu pai e suas curvas ora na vida pessoal ora na vida profissional. Depois, bem mais tarde, por decisão minha mesmo. O fato é que, me mudando tanto e desde muito cedo, não preservei nenhuma amizade de infância. Nenhum amigo dos tempos de escola ou do futebol de rua. Desde pequeno, sempre que criava um vínculo mais próximo com alguém ou com uma turma, uma nova mudança se anunciava e, pronto, era isso, bye bye. Mais uma história de amizade ficava pra trás.

Em tempos de amizade virtual, posso dizer que tenho alguns desses amigos da época de escola nas minhas redes sociais, ou seja, até consigo ve…

A Amazônia Vive

Na noite de ontem, em um discurso emocionado durante a abertura do Rock in Rio, Gisele Bündchen lançou o projeto mundial Believe Earth/Amazônia Live, que visa dar destaque sobre questões ambientais, como a proteção da floresta amazônica. Não é de hoje que Gisele batalha em defesa da Amazônia, mas a questão ganhou mais evidência devido à posição do presidente Michel Temer de sustentar projetos de redução de áreas protegidas e a crescente argumentação de Gisele contra ele. Recentemente fiz uma viagem à Amazônia e posso dizer que me identifico com a causa da modelo. O choro dela é também o meu. Apesar de breve, a viagem se provou transformadora e imensa em seus significados. E aqui faço um relato do que vi e vivi. Relato que é também um convite para que mais pessoas tentem conhecer e ver a floresta com seus próprios olhos.

A VIAGEM

Aos poucos, o barco vai enchendo. De pessoas e coisas e bichos. Me sinto um completo estranho ali, ao lado dos ribeirinhos, das galinhas, dos bujões de gás e …

Barata Ribeiro, 716

Tem aquele filme do Woody Allen em que o protagonista, durante uma viagem a Paris, se lança solitário por passeios noturnos pela cidade-luz e descobre, ao badalar da meia-noite, ser transportado para a década de 1920, época que considera a melhor de todas. Ao embarcar nessa viagem ao passado, ele se encontra com artistas e intelectuais que admira e com os quais já havia tido contato pelos livros e demais obras, já que um encontro pessoal, até então, era impossível devido ao muro do tempo. A viagem é regada a festas com F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Salvador Dali, entre outros.

Gostaria de ser esse personagem de Woody Allen e viver uma experiência parecida. Mas, sem dúvida, meu destino seria outro: Rio de Janeiro, início da década de 1960. Mais precisamente, a Rua Barata Ribeiro, bairro de Copacabana. Número 716. Para ser ainda mais exato: o apartamento de Domingos de Oliveira.

Explico.

Assisti há alguns dias o último filme do diretor carioca, o excelente Barata Ribeiro 716.…

Sobre Senhoras e Cartas

No prédio onde moro trabalham duas senhoras muito simpáticas. Uma delas aprendeu com uma vizinha minha, também brasileira e que mora aqui há mais tempo, que nós brasileiros nos cumprimentamos com abraços e beijos, diferente de quase todos os canadenses que se limitam a um “olá, como você está?”, muitas vezes evitando qualquer contato físico ou se restringindo a um aperto de mãos. Descobrir que eu e minha esposa também somos brasileiros bastou pra que essa senhora passasse a fazer questão de nos cumprimentar com abraços e beijos calorosos.

Me ocorre agora que, talvez, grande parte desse jeito mais frio dos canadenses seja por desconhecimento a uma forma diferente de comportamento. Para essa senhora, pelo menos, pareceu uma descoberta feliz saber que poderia receber um abraço apertado ao invés de um cumprimento protocolar.

A outra senhora também é muito simpática. E tagarela. Frequentemente a encontro nos corredores do prédio, a cumprimento e, se eu der espaço, ela engata alguma históri…

O Vento Quente das Montanhas

No filme O Regresso, aquele que ficou famoso pela cena do urso devorando o Leonardo di Caprio, tem outra cena em que o personagem de Leo observa uma avalanche descendo de uma montanha distante. Tenho duas curiosidades sobre essa passagem. A primeira é que o diretor do longa, o mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu, criou a avalanche de verdade para gravar a cena, ao invés de produzi-la em estúdio com efeitos especiais. Usando alguns explosivos ele fez um mundo de neve despencar montanha abaixo, tornando a cena bem mais realista e... perigosa, talvez. A segunda curiosidade é que a montanha em questão fica bem aqui, no quintal da minha casa. Ou quase isso. Calgary se localiza na província de Alberta, na região das Montanhas Rochosas do Canadá. A tal cena foi gravada na Fortress Mountain, na mesma província onde atualmente habito. Agora me ocorre outro pensamento. O Regresso, justamente esse filme que teve algumas cenas gravadas em Alberta, deu o primeiro Oscar de melhor ator ao Di Capri…

As ruas daqui e as ruas de lá

Aqui no Canadá voltei a caminhar. Não exatamente por exercício físico nem para me manter ativo. Nada disso. Voltei a fazer das minhas pernas meu principal meio de transporte.

Olho no mapa. Se o local onde preciso ir está a menos de cinco quilômetros de distância, calço as botas e me lanço nas calçadas cobertas de gelo. Só se for muito mais distante que isso que recorro ao transporte público. Hoje, por exemplo, caminhei treze quadras para ir e treze quadras para voltar do meu destino. Estava um clima agradável mais cedo, chegou a fazer 5º, eu acho, então cumpri a tarefa sem maiores apertos.

Isso é outra coisa curiosa. Tenho observado que o corpo se adapta rápido ao seu novo ambiente. Até pouco tempo, residindo em uma das cidades mais quentes do Brasil, com 5º provavelmente eu estaria usando todo meu estoque de casacos e não sairia de dentro da coberta, se tivesse escolha. Aqui, onde no inverno as temperaturas normalmente estão abaixo de zero e não raro atingem -30, 5º graus é quase ver…

Estou bem e vivo

Tem uma frase do Domingos de Oliveira que diz assim: “a verdadeira liberdade de um homem não é seguir seus impulsos, é seguir suas escolhas”. Vir para o Canadá não foi um impulso meu, na verdade nem poderia. É algo que precisa ser minimamente planejado e depois, para se colocar em prática, existem algumas obrigações burocráticas – passaporte, visto, etc. Ou seja, foi realmente uma escolha. Podendo seguir essa escolha, penso que exerci minha verdadeira liberdade, como diz Domingos.

Estou muito feliz pela repercussão do meu último texto sobre o impacto inicial na chegada por aqui. Foram tantos compartilhamentos, comentários e, principalmente, trocas de experiências que me emocionaram. Escrever, para mim, sempre foi necessariamente um ato sem pudor. Penso que para alguém se traduzir em palavras é preciso antes se despir. Com o último texto não foi diferente e acho que esse foi o principal motivo por tantas pessoas se identificarem e espalharem o texto por aí.

Li cada um dos comentários.…

Saí do Brasil. E morri.

Estou morando no Canadá há quase um mês. Minha esposa foi aprovada em uma seleção para fazer seu doutorado na cidade de Calgary, a terceira maior do país, e resolvemos vir assim, de mala e cuia. Calgary é um lugar curioso, é chamada pelos íntimos de cowtown, cidade das vacas em uma tradução literal, termo usado para um lugar com fazendas em seus arredores, com um clima mais interiorano, talvez. Só para se ter ideia, o maior rodeio do mundo acontece aqui, então realmente é um lugar de Cowboys e Cowgirls. Mas pretendo contar mais da cidade e da vida aqui depois. Quero focar agora na experiência de se fazer as malas e sair do seu país, seja ele qual for.

Apesar de ser pouco tempo de experiência, já pude comprovar algumas impressões que tinha sobre a mudança para o exterior. O que acontece quando você faz as malas e embarca no avião com destino a um lugar completamente diferente do seu? Você morre. Isso mesmo, você morre. Eu morri quando vim.

Começa pelo fato de normalmente, nesse tipo d…

O Retrato Rasgado

As fotos de uma vida inteira podem caber no bolso da calça.

Temos pen-drive, celular, cartão de memória, tablet, notebook, computador e mais um zilhão de ferramentas para nos auxiliar nesse arquivo infinito enquanto dure. Infelizmente esse fenômeno da tecnologia colocou fim a um hábito comum a maioria das famílias: se reunir para ver fotos. A lembrança que tenho é de retirar do alto do armário caixas e mais caixas, leva-las até a sala para a visita do dia ou para nós mesmos, e começar a retirar um a um os álbuns que contavam a história da família. A cada mergulho no passado perdia-se horas olhando as imagens e comentando o quanto fulano era magro, siclano era cabeludo e assim por diante. O tempo em casa parava e, devagarinho, ia andando para trás. Hoje raramente dedico um tempo para organizar as minhas fotos e muito menos para revê-las. Tenho uma pasta no meu desktop e vou salvando tudo lá, de tempos em tempos, sempre que preciso esvaziar a memória do celular.

A tecnologia também nos …

O Fantasma de Vinte Anos

Todo dia ele faz tudo sempre igual.

Acorda às seis da manhã, desliga o despertador do celular, aproveita o aparelho nas mãos para olhar as últimas novidades das redes sociais, a previsão do tempo, o e-mail, e só depois de uns dez minutos é que se vira para o lado, dá um beijo na esposa que levanta as oito e ainda está dormindo, e se ergue da cama. Afinal, não tem escolha.

Vai até o closet, separa cueca, meia, calça e camisa e deixa cada peça, uma sobre a outra, lhe esperando. Entra no banheiro. Primeiro liga o chuveiro e só depois tira o pijama, dá o tempo certo de a água esquentar. No banho, sempre a mesma sequência. Primeiro o cabelo – o pouco que lhe restou já está grisalho, muito diferente da cabeleira farta dos seus vinte anos – sempre pensa nisso enquanto esfrega os poucos fios com as pontas dos dedos. Por último os pés. Desliga o chuveiro e sai. Seca o corpo começando pela cabeça, que já está no escritório. Será que responderam aquele e-mail? Será que fulano finalizou a planil…

Leia o que te digo

Leia o que te digo
Escute o que te escrevo
Ouça o que te aponto
Se esconda onde te vejo

Olhe o que te grito
Volte onde te alcanço
Venha quanto te odeio
Fuja quando te amo

Seja para sempre
O que já se passou
Lembre eternamente
O que está por vir

Enquanto me viro do avesso
E dentro de você
Procuro por mim

Minha caneta vai pro fundo da gaveta

Como sempre, preciso escrever. Quando digo “preciso” significa mesmo uma necessidade e não um desejo banal. Sujar o papel com a tinta da caneta, para mim, é tão vital quanto puxar o ar para dentro dos pulmões. Deixá-lo de fazer reduz os dias que ainda restam. Todo escritor é, por natureza, um obcecado. Só sente o mundo escrevendo, escancara aquilo que calaria pelas palavras impressas, e, sobretudo, escreve para manter-se em pé. Pois é assim que tem de ser.

Dito isso, devo agora confessar: estou doente. Ou melhor, esse meu eu-escritor é que está. Não tenho dúvida de que a doença que o abateu é a pior que poderia enfrentar, pois tem como principal sintoma nada menos que a falta de assunto. Para ele, é como morrer! Não ter mais sobre o que escrever. Não ter um tema que desperte interesse e inspiração suficientes para desenvolver pensamento particular que valha a pena ser compartilhado. Sua inspiração voou para longe ou o mundo é que em um instante ficou vulgar e desinteressante demais.

T…

Tropeços

Já tentei trocar os sapatos
Amarrar o cadarço
Andar descalço
Já tentei dar a mão
Ir rente ao chão
Me apoiar na parede
Ou no corrimão

Já tentei usar bengala
Muleta e andador
Já tentei segurar a dor
Prender o ar
Já tentei de tudo
Mas a cada passo na calçada
É um tropeço meu
No meio do
Nada

Nessa vida estou aprendendo a caminhar
(e na queda nunca encontro o chão)