segunda-feira, 8 de maio de 2017

Barata Ribeiro, 716


Tem aquele filme do Woody Allen em que o protagonista, durante uma viagem a Paris, se lança solitário por passeios noturnos pela cidade-luz e descobre, ao badalar da meia-noite, ser transportado para a década de 1920, época que considera a melhor de todas. Ao embarcar nessa viagem ao passado, ele se encontra com artistas e intelectuais que admira e com os quais já havia tido contato pelos livros e demais obras, já que um encontro pessoal, até então, era impossível devido ao muro do tempo. A viagem é regada a festas com F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Salvador Dali, entre outros.

Gostaria de ser esse personagem de Woody Allen e viver uma experiência parecida. Mas, sem dúvida, meu destino seria outro: Rio de Janeiro, início da década de 1960. Mais precisamente, a Rua Barata Ribeiro, bairro de Copacabana. Número 716. Para ser ainda mais exato: o apartamento de Domingos de Oliveira.

Explico.

Assisti há alguns dias o último filme do diretor carioca, o excelente Barata Ribeiro 716. Nele, Domingos resgata os dias em que viveu no famoso apartamento em Copacabana, no início dos anos 1960. É um filme autobiográfico, portanto. Nessa época, pré-golpe militar, Domingos lotava seu apartamento e emendava festas regadas a muito álcool. No filme, Domingos é Felipe, interpretado por Caio Blat, que está genial no papel. Felipe tenta escrever um livro enquanto vive bêbado, de álcool e de amor, apaixonado pelas belas meninas que frequentam suas noitadas.

No filme, Felipe filosofa. Felipe chora. Felipe sofre de amor. Felipe se apaixona de novo. Pelas mulheres e pelos seus amigos. Felipe vive. Intensamente. De acordo com o que acredita. Por mais que o caminho não lhe pareça plano, ele segue em frente. Pois para ele, faz todo o sentido. O resultado é que você não vê saindo da tela um filme óbvio, tampouco uma história linear. O que você vê saindo da tela é amor. Isso mesmo e simples assim. Amor pela vida. Pela vida e tudo o que ela é capaz de nos oferecer. Amor daqueles que embriagam.


Domingos é um entusiasta da vida e deixa isso explícito em todas as suas obras. Por isso, retratando ele mesmo no auge de sua juventude, seria natural o nascimento de um personagem como Felipe. O mesmo amor que ele sentia nos anos 1960 ele mantém intocado até hoje, caso contrário não seria possível ter feito o filme que ele fez. Ao menos não com a sinceridade com que a história chega até nós. Domingos está no auge dos seus 80 anos e mantém sua juventude intacta, é impressionante e inspirador.

Dividindo com a gente essa passagem de sua história, Domingos nos lembra que as pessoas, mesmo sendo diferentes, sempre têm muito a oferecer e ensinar. Não precisamos pensar da mesma forma para compartilharmos a experiência da vida. O mundo poderia se parecer um pouco mais com o seu apartamento na BR: cheio de pessoas com os mais diferentes gostos, filosofias e formas de vida e que, apesar de não serem iguais, permanecem unidas. Essa é uma lição valiosa em tempos de polarização e individualismo. Dias de “pensou diferente, virou meu inimigo”.

Por isso, se eu pudesse, viajaria no tempo como no filme de Woody Allen. Com um bloquinho na mão, escutaria Domingos (ou Felipe), filosofar sem parar e não perderia uma frase. E daria um recado a ele. Que ficasse tranquilo, pois iria conseguir aquilo que estava buscando naquele momento: viver de sua arte. Contaria que, anos mais tarde, ele mesmo faria um filme narrando aqueles dias e influenciaria outros jovens, de uma época tão distante. E muito mais do que isso, ensinaria a gente a viver melhor.

Depois disso, brindaríamos a vida. E brindaríamos o amor!

P.S.: agradecimento especial à produtora do filme, Renata Paschoal, pois sem ela não teria conseguido assistir ao filme estando tão distante do Brasil. Obrigado, Renata! Um brinde a você, daqui das terras geladas do Canadá!

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sobre Senhoras e Cartas

No prédio onde moro trabalham duas senhoras muito simpáticas. Uma delas aprendeu com uma vizinha minha, também brasileira e que mora aqui há mais tempo, que nós brasileiros nos cumprimentamos com abraços e beijos, diferente de quase todos os canadenses que se limitam a um “olá, como você está?”, muitas vezes evitando qualquer contato físico ou se restringindo a um aperto de mãos. Descobrir que eu e minha esposa também somos brasileiros bastou pra que essa senhora passasse a fazer questão de nos cumprimentar com abraços e beijos calorosos.

Me ocorre agora que, talvez, grande parte desse jeito mais frio dos canadenses seja por desconhecimento a uma forma diferente de comportamento. Para essa senhora, pelo menos, pareceu uma descoberta feliz saber que poderia receber um abraço apertado ao invés de um cumprimento protocolar.

A outra senhora também é muito simpática. E tagarela. Frequentemente a encontro nos corredores do prédio, a cumprimento e, se eu der espaço, ela engata alguma história. Dia desses desci para jogar o lixo e, voltando para o apartamento, passei por ela, que estava com uma carta na mão e o olhar distraído sobre o envelope. Ao me ver, me cumprimentou, como sempre, comentou sobre o clima, como quase sempre, e então voltou sua atenção para a carta que segurava, pensando sobre algo para me dizer.

Contou então que tinha se mudado há muitos anos para Calgary, vinda de outra região do Canadá, deixando muita gente para trás. Dos parentes mais velhos, segundo ela, nenhum se lembrava de entrar em contato, simplesmente por esquecimento, problema de memória mesmo, comum aos mais velhos. Todos, com exceção de uma prima que havia escrito a carta que agora ela tinha em mãos. Essa prima fazia isso sempre, atualizava sua vida por carta. Era rotina entre as duas.

Você já sentiu saudade de algo que nunca viveu? Pois eu senti naquele momento. Saudade de me corresponder por carta. Tudo bem, não sou tão novo assim. Cheguei a viver um pouco disso. Lembro de receber cartas da minha mãe, por exemplo, e até de alguns amigos e namoradinhas. Inclusive, tenho algumas guardadas até hoje. Mas se tratava de algo opcional, não obrigatório. Tínhamos telefone e internet. Enviar uma carta era mais uma questão de charme, romantismo, algo assim. E, pelo que sei, até isso acabou. Evoluímos primeiro a ponto de não mais precisarmos da carta e depois a ponto de não mais querermos a carta.

Faz sentido. Se você tem Whatsapp, e-mail, Facebook, Skype e outras dezenas de opções mais fáceis de comunicação, qual o sentido de gastar tempo escrevendo uma carta que demorará dias para chegar? Sem contar o fato de que, provavelmente, quando a carta finalmente alcançar o seu destinatário, aquilo que você contou já vai ter ficado velho. Imagina então se a resposta vier também por carta? A pessoa vai comentar aquilo que nem faz mais sentido.

É estranho até pensar como um dia pudemos viver assim, sem termos outra opção. Mas confesso que achei bonito esse costume da senhora do meu prédio por ser, talvez, um saudosista em algumas questões. Prefiro jornal de papel ao digital e vitrola ao Spotify. Mas isso não quer dizer que eu queira abrir mão do Whatsapp. Não. O que tenho claro em mim é a convicção de que existem coisas que cabem melhor em uma carta escrita a mão do que em uma mensagem digitada no computador ou no celular.

Você pensa mais sobre o que dizer, escreve com mais capricho e cuidado e se aprofunda mais no que tem pra contar. A carta é um jantar especial com conversa a dois, enquanto o papo no celular é um encontro informal com diálogos mais superficiais. Cada um tem seu espaço. Sem contar o fato de que a carta se transforma quase em um documento. Você guarda como lembrança. Fui olhar agora, por curiosidade. A carta que a minha mãe me enviou e que tenho guardada até hoje é de 1996, ou seja, já tem mais de 20 anos!

A senhora do meu prédio encerrou aquele papo com um conselho simples, mas muito difícil de seguir. Disse que devemos manter contato com os parentes e amigos enquanto estamos aqui, pois depois que formos embora não será mais possível. Guardei aquela lição bem guardada. Como as cartas da minha infância.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O Vento Quente das Montanhas


No filme O Regresso, aquele que ficou famoso pela cena do urso devorando o Leonardo di Caprio, tem outra cena em que o personagem de Leo observa uma avalanche descendo de uma montanha distante. Tenho duas curiosidades sobre essa passagem. A primeira é que o diretor do longa, o mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu, criou a avalanche de verdade para gravar a cena, ao invés de produzi-la em estúdio com efeitos especiais. Usando alguns explosivos ele fez um mundo de neve despencar montanha abaixo, tornando a cena bem mais realista e... perigosa, talvez. A segunda curiosidade é que a montanha em questão fica bem aqui, no quintal da minha casa. Ou quase isso. Calgary se localiza na província de Alberta, na região das Montanhas Rochosas do Canadá. A tal cena foi gravada na Fortress Mountain, na mesma província onde atualmente habito. Agora me ocorre outro pensamento. O Regresso, justamente esse filme que teve algumas cenas gravadas em Alberta, deu o primeiro Oscar de melhor ator ao Di Caprio, encerrando o famoso jejum. Menos de um ano depois da premiação, me encontro vivendo aqui. O que isso significa?

Com certeza nada.

Continuando, então.

Apesar de poder avistá-las da cidade, ainda não tive oportunidade de conhecer as tais montanhas. Dizem que a paisagem é de tirar o fôlego. Mesmo assim, sem conhecê-las, já tenho ideia de seu valor. Pelo que me explicaram alguns canadenses, é de lá que sopra um vento chamado de “Chinook”. Um vento salvador, podemos dizer. Seu nome deriva de uma palavra na língua da tribo indígena Chehalis e seu significado seria algo como “comedor de neve”. E é uma excelente definição: vento comedor de neve. É mais ou menos isso mesmo que ele é.

Algumas vezes, durante o rigoroso inverno daqui, o tal vento aparece para aliviar um pouco o frio. Li que, em uma hora, a temperatura pode ser elevada em até 5º, algo assim. É exatamente o que vem acontecendo nas últimas semanas. Ontem, por exemplo, o termômetro passou dos dez graus positivos. Ou seja, inverno a la Brasil. Um alívio e tanto para quem estava enfrentando temperaturas próximas ao – 20º. Inclusive boa parte da neve aqui na frente de casa derreteu.

Já posso dizer que tenho um grande amigo aqui em Calgary: o tal do Chinook.

Assim que ouvi alguns canadenses me explicando o fenômeno do vento comedor de neve e apontando ele como responsável pelo fato de o inverno de Calgary ser mais suportável do que em outras regiões do Canadá, me peguei pensando nele como uma excelente metáfora da vida. Acho que todos nós deveríamos estocar um pouco desse vento, como diria uma amiga nossa. Para nos aquecer durante os rigorosos invernos que a vida nos apresenta.

Se o relacionamento deu uma esfriada, se não encontra motivação no trabalho, se a cidade em que vive parece não ter mais nada para oferecer, se nada na TV lhe prende atenção, se a vida está um tédio, use um pouco do vento para aquecê-la. Se está passando por uma fase mais difícil, uma separação, a perda de um ente querido, um problema financeiro, recorra ao vento. O vento pode ser o que você quiser e, na verdade, só você sabe o que ele deve ser. Um jantar especial com sua esposa, um projeto novo no trabalho, uma mudança de cidade, o renascimento daquele plano distante do qual você tinha desistido, uma viagem, uma visita aos seus pais, um passeio com seu irmão, um trabalho voluntário, um novo curso. Pode ser tudo, enfim. Às vezes a vida parece ser um inverno interminável e o que nos resta é aproveitar o vento quente que não precisa vir das montanhas. Nós mesmos podemos soprá-lo.

Afinal, no tédio da vida também é possível haver poesia. No inverno também pode existir verão.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

As ruas daqui e as ruas de lá

Aqui no Canadá voltei a caminhar. Não exatamente por exercício físico nem para me manter ativo. Nada disso. Voltei a fazer das minhas pernas meu principal meio de transporte.

Olho no mapa. Se o local onde preciso ir está a menos de cinco quilômetros de distância, calço as botas e me lanço nas calçadas cobertas de gelo. Só se for muito mais distante que isso que recorro ao transporte público. Hoje, por exemplo, caminhei treze quadras para ir e treze quadras para voltar do meu destino. Estava um clima agradável mais cedo, chegou a fazer 5º, eu acho, então cumpri a tarefa sem maiores apertos.

Isso é outra coisa curiosa. Tenho observado que o corpo se adapta rápido ao seu novo ambiente. Até pouco tempo, residindo em uma das cidades mais quentes do Brasil, com 5º provavelmente eu estaria usando todo meu estoque de casacos e não sairia de dentro da coberta, se tivesse escolha. Aqui, onde no inverno as temperaturas normalmente estão abaixo de zero e não raro atingem -30, 5º graus é quase verão. É verdade. O corpo realmente sente isso. Mas estou desviando o assunto.

Ir de um lugar para outro caminhando e fazer disso uma rotina me fez lembrar a infância, é isso que quero contar.

Recordo o caminho exato até uma das escolas em que estudei. Morava relativamente perto, uns quinze minutos a passos médios. Saía de casa à esquerda, virava à direita, depois à direita de novo e ia embora. Algumas quadras depois, à esquerda de novo e já estava na rua da escola. Fazia esse caminho a pé quase sempre.

Lembro também de outra época, em que costumava ir com uma das minhas irmãs de bicicleta até outra escola em que estudei. O maior perigo era quando chovia e as ruas, que eram de terra, viravam um lamaçal só. Eu não guiava muito bem, então não era incomum eu perder o controle, esbarrar em algum obstáculo invisível e cair. Quando encontrava um mar de lama lá embaixo, o estrago era imenso. Você pode imaginar o que acontecia com o uniforme branco. Outro risco, naturalmente, eram os carros. Não sei como passei ileso por esse período, sem sofrer um acidente pior, porque realmente guiava mal.

Com o passar dos anos, fui deixando esse hábito de lado, assim como tantos outros brasileiros. Pelas histórias dos jornais, pelas conversas com os vizinhos, o medo de sair a pé em uma grande cidade brasileira, é totalmente embasado. Se você não conhece alguém que foi assaltado nos últimos meses, é um privilegiado. O descaso do governo com a segurança pública não nos tirou a liberdade de ir e vir, nos tirou a liberdade de ir e vir sem medo. Porque você até se arrisca, mas não usa celular em público, evita determinadas regiões e horários e, claro, sente medo enquanto está exposto. A violência no Brasil nos obriga a sermos paranoicos.

Infelizmente, é assim. No lugar de onde eu venho e que chamo de casa dificilmente faria o que faço aqui. Uma coisa simples e prazerosa, e que deveria ser um direito básico. Hoje pensei em tudo isso enquanto caminhava. Justamente porque, ao caminhar sem paranoia, meus pensamentos tomam formas e viajo, vou pra onde Deus quiser... como diz a canção. Canção que, aliás, eu adorava escutar quando era criança.

As ruas daqui, pra mim, têm gosto de infância.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Estou bem e vivo


Tem uma frase do Domingos de Oliveira que diz assim: “a verdadeira liberdade de um homem não é seguir seus impulsos, é seguir suas escolhas”. Vir para o Canadá não foi um impulso meu, na verdade nem poderia. É algo que precisa ser minimamente planejado e depois, para se colocar em prática, existem algumas obrigações burocráticas – passaporte, visto, etc. Ou seja, foi realmente uma escolha. Podendo seguir essa escolha, penso que exerci minha verdadeira liberdade, como diz Domingos.

Estou muito feliz pela repercussão do meu último texto sobre o impacto inicial na chegada por aqui. Foram tantos compartilhamentos, comentários e, principalmente, trocas de experiências que me emocionaram. Escrever, para mim, sempre foi necessariamente um ato sem pudor. Penso que para alguém se traduzir em palavras é preciso antes se despir. Com o último texto não foi diferente e acho que esse foi o principal motivo por tantas pessoas se identificarem e espalharem o texto por aí.

Li cada um dos comentários. Infelizmente é complicado de responder um a um, mas saber que tantas pessoas se identificaram com o que eu narrei foi incrível. Obrigado por compartilharem suas experiências comigo! Li histórias de quem há muito deixou o Brasil, rumo ao desconhecido, em épocas bem mais difíceis que a minha e disseram sentir exatamente o que exprimi no texto. Recebi também mensagens de pessoas que sonham em viver algo parecido e me agradeceram por mostrar a experiência por outro lado. Enfim, foram muitos comentários positivos e neles é que escolhi focar.

O “morrer” no texto foi usado como uma figura de linguagem para descrever a transformação da minha vida. É bom reforçar. Não estou depressivo, nem em crise, nem infeliz, nem arrependido, nem nada. Pelo contrário. Estou vivo, muito feliz, adorando estar em um país diferente, cada dia aprendendo mais o inglês e sobre a cultura por aqui. Como mencionei no primeiro texto e acho que alguns passaram batido, essa é uma experiência que eu recomendo para todo mundo, apesar do peso que vem junto e te faz “morrer”.

Tem outra frase do mesmo Domingos de Oliveira que diz assim: “o que importa é ter ideais. Nem que seja para perdê-los e sair procurando outros”. Ao vir para o Canadá, deixei alguns dos meus ideais um pouco de lado e vim fazer exatamente isso – procurar por outros. Seguirei dividindo essa nova busca com vocês. Vamos juntos!