quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O Dia Em Que Topei Com João Gilberto Em Calgary


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Dia desses resolvi dar uma volta por alguns lugares que ainda não conhecia em Calgary. Escolhi primeiro caminhar por Inglewood, o bairro mais antigo da cidade. Lá fica a atual Ninth Avenue, que foi por algum tempo a principal avenida daqui. Hoje é uma região cheia de lojas e galerias de arte, artesanato e antiguidades. Além de já ter sido definida como o centro da música local por conta de seus bares e restaurantes e os festivais promovidos ao longo do ano. Em resumo, lugar interessantíssimo para um passeio despretensioso. Então, me fui.


Já calcorreando pelas charmosas calçadas do tal bairro, um som familiar me alcançou. Uma música que eu sabia que conhecia, mas levei algum tempo para reconhecer. Mais ou menos como quando você topa com um conhecido na rua e por um segundo não se lembra de onde o conhece. Foi o prazo de entrar a voz de João Gilberto, cobrindo o solo de saxofone:

- Um cantinho, um violão...

Era Corcovado, clássico de Tom Jobim interpretado pelo pai da Bossa-Nova, no clássico disco Getz/Gilberto de 1964.

A gravação desse disco rendeu um dos episódios mais curiosos da música brasileira. O disco foi gravado em Nova York e, como o título deixa claro, era uma parceria entre o nosso João Gilberto e o saxofonista americano Stan Getz. No livro “Chega de Saudade”, Ruy Castro conta que durante a produção do álbum, João e Stan encontravam dificuldade na hora de selecionar os melhores takes. Nesse ambiente, se deu um diálogo histórico, com Tom Jobim fazendo o papel de intérprete. João pediu: “Tom, diga a esse gringo que ele é um burro”. Tom, para Getz: “Stan, o João está dizendo que o sonho dele sempre foi gravar com você”.

Mas voltando ao meu passeio por Inglewood.

Sempre me emociono quando sou surpreendido por uma música brasileira tocando em um lugar público aqui no Canadá. Acho uma coincidência tremenda estar no lugar e na hora exatos em que sei lá quem decide executar um João Gilberto, por exemplo, como foi o caso naquela tarde. Soa como algo dedicado exclusivamente a mim, não sei. Como se as calçadas de Inglewood quisessem me dar às boas-vindas com uma música que realmente me tocasse. Como alguém decide homenagear um amigo estrangeiro cozinhando um prato típico de seu país de origem.

Quase sempre quando ouço música brasileira aqui o gênero selecionado é bossa-nova, uma das coisas que gringo geralmente gosta quando o assunto é Brasil. Acho bonito porque é o gênero do Brasil romântico. Do Brasil que deu certo. Do Brasil que observa a menina que passa num doce balanço a caminho do mar. Que observa, sem pressa e degustando um chopp gelado, o barquinho indo enquanto a tarde cai. O Brasil é isso. Mas infelizmente não é só isso. Não é a toa que a Bossa-Nova é acusada de ser elitista e alienada, por ignorar as mazelas sociais e o chamado por alguns de verdadeiro Brasil.

Bem. Perdoe-me as várias voltas, eupático leitor. Voltando mais uma vez a Inglewood.


Ouvindo a voz de João Gilberto, estaquei na calçada e me demorei mais alguns instantes observando o ir e vir das ruas parcialmente cobertas pela neve.

- Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo...

E era como se lá distante eu conseguisse realmente enxergar o Cristo, braços abertos lá no alto. E é mesmo lindo, qualquer um há de concordar.

Então me lembrei de Caetano. Na música “Pra Ninguém” ele vai citando alguns cantores e suas obras. A letra menciona: Nana cantando “Nesse Mesmo Lugar”, Tim Maia cantando “Arrastão”, Bethânia cantando “A Primeira Manhã”, entre vários outros. No fim, decreta:

- Melhor do que isso só mesmo o silêncio. E melhor do que o silêncio só João.

Caetano tem razão. João Gilberto com seu violão sutil e sua voz minimalista preenche qualquer espaço sem agredi-lo. É melhor que silêncio, portanto.

Então me lembrei de quando estive no Brasil mês passado e li em uma revista que a situação de João Gilberto é absolutamente dramática. Está endividado, sob intervenção judicial e cada vez mais isolado do mundo. É como se ele pensasse que já fez muito pelo nosso mundo através de sua arte (e fez mesmo) e desistisse de viver em sociedade, decidisse fazer só o que quer a hora que quer usando o crédito que tem. Mas esse é assunto para outra crônica.

Em Inglewood, a música findou e eu segui a Lalá que já chamava minha atenção para algo qualquer em uma vitrine próxima. Seguimos nosso passeio. Eu com uma pontada de saudade do Brasil. De um Brasil que talvez só exista mesmo nas canções.



terça-feira, 7 de novembro de 2017

Os Meus Amigos de Infância

Dia desses um colega de trabalho me perguntou se eu conversava frequentemente com meus amigos do Brasil. Respondi que sim, que ainda mantinha certo contato, porém muito menos do que eu gostaria. Ele emendou outra pergunta: e com seus amigos de infância?

Quem me conhece sabe que já morei em muitos lugares diferentes, permanecendo em média por quatro anos em cada cidade. No início carregado pelo meu pai e suas curvas ora na vida pessoal ora na vida profissional. Depois, bem mais tarde, por decisão minha mesmo. O fato é que, me mudando tanto e desde muito cedo, não preservei nenhuma amizade de infância. Nenhum amigo dos tempos de escola ou do futebol de rua. Desde pequeno, sempre que criava um vínculo mais próximo com alguém ou com uma turma, uma nova mudança se anunciava e, pronto, era isso, bye bye. Mais uma história de amizade ficava pra trás.

Em tempos de amizade virtual, posso dizer que tenho alguns desses amigos da época de escola nas minhas redes sociais, ou seja, até consigo ver como envelheceram e ter uma ideia de como são suas vidas hoje. Se alguém se casa, no dia seguinte vejo as fotos no Facebook. Se alguém engravida, logo sei também. Imagino que eles também acabam acompanhando um pouco da minha vida pela internet. Mas amizade mesmo, de verdade, essa ficou no passado.

Esse meu colega de trabalho nasceu e viveu praticamente a vida inteira na mesma cidade e, por isso, seus amigos são praticamente os mesmos há mais de 30 anos. Sempre que ouço esse tipo de história, um lado de mim lamenta ter tido e ainda estar nessa vida meio cigana. Digo um lado porque o outro normalmente se sente muito grato pelas mudanças e o tanto de aprendizado que elas significaram pra mim. Não sei se hoje conseguiria viver de outra maneira. Mas não adianta, no fundo, sinto um pouco de inveja desse meu amigo.

Sou um romântico inveterado, por isso acho linda a imagem da amizade de infância. É como ter alguém te acompanhando a vida toda, assistindo as suas conquistas e fracassos e torcendo por você. É ter alguém pra dividir as angústias e alegrias. É ter alguém que antecipa a sua fala de tanto que já te conhece. Sabe quando você precisa de ombro e quando você precisa de agito. Um relacionamento livre de qualquer interesse e por isso, talvez, mais puro. Talvez a cronologia de um relacionamento não seja garantia de profundidade e verdade. Mas uma parte de mim insiste em pensar que um amigo que é amigo há vinte anos, por exemplo, não pode ter sua amizade contestada, diferente de um recém-chegado.

Pensando em tudo isso nessa tarde fria que faz em Calgary e descrevendo um pouco do que imagino como amigo de infância, cheguei à conclusão de que estive enganado esse tempo todo. Eu tenho sim amigos de infância e não são poucos. Por exemplo, minha irmã mais velha acompanhou todos os meus vinte e oito anos de vida bem de perto. Trocamos segredos, conversamos muito até hoje e temos uma relação de parceria como poucas. Posso dizer então que são vinte e oito anos de amizade. O mesmo acontece com meu pai, minha mãe e as irmãs que vieram depois da Marina. E quem me conhece sabe que não são poucas. Somos uma família grande. Elas são minhas amigas de infância. Meu pai é meu amigo de infância. Minha mãe é minha amiga de infância. Mesmo minha esposa é minha amiga de infância. Afinal, já trocamos tantas histórias antigas e já vi e revi tantas fotos que a impressão é de que realmente a conheço desde pequena.

Eu também sou meu próprio amigo de infância. Talvez o mais próximo de todos. Porque ainda carrego comigo a criança que fui um dia. Por exemplo, quando assisto a um novo filme do Homem-Aranha, seu/meu herói favorito, ele está comigo. Quando revisito a coleção de quadrinhos que tenho até hoje. Quando ouço uma música dos Engenheiros. Quando assisto a um filme com o Schwarzenegger. São tantas coisas que me levam a ele.

Pensando bem, a partir de hoje mudarei minha resposta. Quando perguntarem se tenho amigos de infância, responderei que sim. E se me perguntarem se ainda mantenho contato com eles, não hesitarei. Direi que sim. Todos os dias.

sábado, 16 de setembro de 2017

A Amazônia Vive


Na noite de ontem, em um discurso emocionado durante a abertura do Rock in Rio, Gisele Bündchen lançou o projeto mundial Believe Earth/Amazônia Live, que visa dar destaque sobre questões ambientais, como a proteção da floresta amazônica. Não é de hoje que Gisele batalha em defesa da Amazônia, mas a questão ganhou mais evidência devido à posição do presidente Michel Temer de sustentar projetos de redução de áreas protegidas e a crescente argumentação de Gisele contra ele. Recentemente fiz uma viagem à Amazônia e posso dizer que me identifico com a causa da modelo. O choro dela é também o meu. Apesar de breve, a viagem se provou transformadora e imensa em seus significados. E aqui faço um relato do que vi e vivi. Relato que é também um convite para que mais pessoas tentem conhecer e ver a floresta com seus próprios olhos.

A VIAGEM

Aos poucos, o barco vai enchendo. De pessoas e coisas e bichos. Me sinto um completo estranho ali, ao lado dos ribeirinhos, das galinhas, dos bujões de gás e outros tantos pacotes cujos conteúdos não consigo identificar. Estou no Distrito de Laberinto, a aproximadamente 55 km de Puerto Maldonado, capital do departamento de Madre de Diós, Peru, região próxima ao Acre. O rio leva o mesmo nome do departamento, que é o equivalente ao estado no Brasil. Estou prestes a iniciar uma grande aventura por sete dias na Amazônia Peruana. Para mim, uma jornada cheia de significados.

O caminho que percorri para chegar ali é bastante irônico. Principalmente pelo fato de eu só vir a encarar essa viagem depois de sair do Brasil. Hoje moro no Canadá, onde para grande parte das pessoas a Amazônia não passa de uma peça de ficção. De onde eu venho, não é muito diferente. Apesar de 60% de toda a floresta estar em território brasileiro, a imensa maioria das pessoas de lá também a tem como algo abstrato. No Brasil, sabemos sua localização, suas características e reconhecemos sua importância. Muitos a defendem com unhas e dentes, alegando ser o pulmão do mundo e outras coisas mais. Mas a imensa maioria nunca conseguiu combinar condição e coragem a fim de olhar um pouco mais de perto a realidade da floresta. Penso que a distância da Amazônia para os canadenses e brasileiros não é assim tão diferente.

Depois de duas horas de espera, o barco parte, lotado. Ao meu lado, uma senhora improvisa um tanque cheio de gasolina como assento. Vamos adentrando a mata, cada vez mais a fundo, cada vez mais o desconhecido se desenhando a minha frente. Vejo um mundo de água por todos os lados, a floresta nos dando os braços em cada margem do rio, como que formando um abraço de boas-vindas. No caminho, vamos avistando animais, árvores e plantas das mais variadas espécies e outras coisas que nos comovem, mas para o mal. Estamos em uma área onde há muita mineração de ouro, grande parte das operações, ilegais. A atividade mineradora é a principal responsável pelo desmatamento na região. A parte que sangra na floresta também sangra dentro de mim. É impossível agora não pensar em Michel Temer e no Brasil. Se a recente decisão do presidente de sacrificar uma área da Amazônia onde caberia a Dinamarca inteira em prol da mineração causa revolta e faz nascer campanha nas redes sociais, para quem já esteve na floresta e a viu com os próprios olhos, a dor é maior.


A viagem de barco dura aproximadamente cinco horas. São muitas paradas e em cada uma delas o ritual se repete. Alguns passageiros saltam para fora levando seus pertences com a ajuda de um dos donos do barco, que também estende uma tábua de madeira entre o barco e a terra, para auxiliar no desembarque. Fico pensando a que rumo aquelas pessoas estão indo, já que do assento onde estou não consigo enxergar nada do outro lado, nem casa, nem algo que se assemelhe. Elas vivem ali e, para mim, é uma realidade difícil de digerir. Percebo também que o significado da Amazônia para mim, um completo estrangeiro, e para as pessoas que ali habitam, é separado por um mundo do tamanho da própria floresta. O rio, para eles, é estrada. A floresta, moradia e fonte de sua sobrevivência. As questões ambientais discutidas por nós não os alcançam. E é com naturalidade que o rio vira lixeira. Assisto incrédulo aos arremessos de plásticos e outras sobras dentro do rio. Me incomodo mas fico em silêncio. Sei que a floresta para mim não é a mesma para as pessoas que me acompanham naquele barco.

Depois de cinco horas de viagem, sete no total com as duas de espera, finalmente chegamos à estação biológica Los Amigos, eu e minha esposa, responsável por eu estar ali. Por dois meses a estação se transformou em sua casa, onde ela trabalha pesquisando sobre o comportamento dos primatas que ali habitam. Saltamos do barco com o sol já baixo e a noite ganhando espaço. Adentramos a mata enquanto ao fundo o som do barco desaparece, já a caminho de outro destino. Para alcançar a estação, ainda precisamos subir quase trezentos degraus. Depois de toda a saga para chegar ali e com um mochilão pesando nas costas, essa não é das tarefas mais fáceis. As árvores se unem acima da cabeça formando um teto e a escuridão toma conta. Ao contrário do que se pode imaginar, a mata é tão barulhenta quanto uma metrópole, principalmente à noite. Os sons é que são diferentes. Buzinas, gritos e músicas são substituídos pelos sons dos animais que ali habitam. Recupero o fôlego e enfrento a escada, cujo fim ainda não vejo.

A CABANA

A estrutura da estação biológica é fantástica, quando penso que estamos no meio da floresta amazônica, no lugar mais ermo em que já estive em toda a minha vida. Mesmo assim, estamos muito distantes do conforto da cidade e de qualquer sinal de luxo. Um gerador é a fonte de energia elétrica, que é desligada automaticamente todos os dias pontualmente às 9 da noite. Os banhos são gelados e a comida limitada. Há bangalôs para os turistas, porém todos estão vazios quando chego. Há aproximadamente 15 pessoas hospedadas ali, nos outros quartos, todos envolvidos com algum trabalho de pesquisa científica, ninguém a turismo ou passeio. São americanos em sua maioria. Biólogos, pesquisadores ou trabalhadores voluntários. Ao chegar, sou apresentado a cada um deles rapidamente, sem conseguir disfarçar o cansaço.

O próximo passo é caminhar até a cabana onde ficaremos hospedados pelos próximos dias. O lugar fica afastado dos quartos onde os outros estão e da estrutura central da estação e, devido à combinação entre o desconhecimento da floresta e a exaustão que sinto, o caminho até lá se torna bastante assustador. Nos pés, galochas, para me proteger das cobras, aranhas e outros bichos peçonhentos. Aprendi que essa é a regra número um da floresta – galochas nos pés durante todo o tempo. Na cabeça, uma lanterna para iluminar o caminho. O lugar é simples, apenas um cômodo com duas camas. Deixo minha mochila e caminho até o banheiro para lavar o cansaço. O banheiro é separado, a cerca de 50 metros da cabana e é preciso enfrentar a noite para chegar até lá. Na escuridão, tomo um banho gelado ao som da floresta, que me recebe barulhenta e intimidadora. Talvez já para mostrar o quão insignificante eu era ali.


Mais tarde, um pequeno alvoroço começa a se formar próximo a cabana. Alguns pesquisadores se juntam e todos olham para o topo de uma árvore. Demoro para entender o que se passa. A escuridão, a infinidade de sons não identificados e o excesso de mosquitos fazem com que eu deseje uma cama mais do que qualquer outra coisa naquele momento. Pouco depois outras pessoas chegam correndo com lanternas e câmeras e entendo o que provocou a comoção. No topo da árvore enxergo um bicho-preguiça pendurado, alheio a confusão abaixo. Todos estão encantados e emocionados com a visão e eu, aos poucos, começo a entender a real dimensão daquilo. Não estamos em um zoológico ou em um safari. Avistar uma preguiça é algo raríssimo na floresta e todos me alertam disso. Um dos trabalhadores da estação me diz: “você tem sorte, Felipe, na sua primeira noite aqui!”. Eu concordo, acenando com a cabeça. Sim, só de estar ali, já me considerava sortudo.

DESBRAVANDO A FLORESTA


Às 6h o relógio desperta e essa seria a rotina pelos próximos dias. Depois de levantar e calçar as galochas, vamos ao refeitório, onde todos estão tomando café, com exceção daqueles que já estão trabalhando na mata. Bom dia se mistura com buenos dias que se mistura com good morning, a fome e o sono àquela hora da manhã sendo o único idioma totalmente comum a todos. As três refeições diárias são preparadas com carinho por dois cozinheiros peruanos. Não temos pão nem queijo e qualquer fruta é um pouco como luxo. Também não é incomum termos arroz de café da manhã e, para mim, brasileiro, isso é esquisitíssimo. Agradeço aos dois peruanos gastando todo o meu espanhol (gracias!) e me junto aos outros, à mesa.

Minha missão ali é acompanhar minha esposa como uma espécie de assistente, em seu trabalho de pesquisa. Durante todos os dias, depois do café, é a nossa hora de sair para desbravar a mata à procura dos primatas para observações e registros. Na região da estação biológica, a floresta é toda dividida por trilhas e isso facilita muito o trabalho de iniciantes como eu, apesar de não diminuir os riscos. Durante as caminhadas, sinto um frio na barriga constante, já que a qualquer momento poderíamos topar com cobra, onça ou um macaco menos amigável. E isso aconteceu algumas vezes. Por sorte, nenhuma situação avançou mais que um susto. Ao todo, vi de perto sete espécies diferentes de macacos, duas onças de pequeno porte, um bicho-preguiça, um queixada, uma anta, um sapo gigantesco, um jacaré, uma irara e muitas, muitas aves. As boas-vindas dadas pela preguiça na minha primeira noite, mesmo sem ela saber, foi fundamental para eu entender a real profundidade de dividir espaço com os animais nativos daquela floresta. Por isso, a cada encontro, uma emoção.


Ver todos esses animais de perto foi uma experiência completamente diferente pra mim, pois ali, no meio da floresta amazônica, o estranho era eu. Aquele era o habitat natural dos bichos que cruzaram meu caminho, e não o meu. É impossível comparar com um passeio de domingo no zoológico, por exemplo. É lindo e assustador ao mesmo tempo, pois aquela primeira impressão de que a floresta era imponente, se confirmou ao longo da minha jornada. Era preciso respeito. A Amazônia me lembrava disso todas as noites, quando eu pegava no sono ouvindo os passos de animais não identificados rodando minha cabana. Teve uma noite em que acordamos para ir ao banheiro e avistamos uma anta, imensa, próxima a nossa cabana. Trocamos olhares e decidimos fazer xixi ali mesmo, no mato, para não nos aproximarmos demais. Teve a vez que fomos recebidos na nossa cabana pelos gritos ensurdecedores de um grupo de bugios, lindo e, claro, intimidador. Sem falar nas várias trocas de olhares com os macacos-aranha em que eu me recusava e fazer qualquer movimento aguardando ele desviar o olhar, como um sinal de aprovação.

LAZER E DESPEDIDA

Durante meus dias na Amazônia, nas horas de folga os recursos para diversão eram simplórios perto do que temos à disposição em casa. Para se ter uma ideia, o auge foi uma partida de vôlei com uma bola um pouco murcha em um campo improvisado. A divisão desigual dos times, jogando três contra dois, mostrava o quanto o resultado ali não tinha importância. Rimos muito e descontraímos aquela tarde quente. Lembro com carinho desse momento.

Jogamos muito “Banana”, aquele jogo de peças em que você tem que ir montando as palavras como num caça-palavras e quem terminar com as peças primeiro, ganha. A conversa fiada recebendo o verdadeiro foco. Em uma das tarde livres, eu e minha esposa fomos até o Cocha Lobo, um lago próximo da estação e ficamos rodando de canoa, prestando atenção na vida a nossa volta. Vimos morcegos e aves incríveis! Por vezes também paramos para ver o pôr do sol lá de cima, reconhecendo a beleza.


Então, se você me perguntasse, sem dúvida diria que essa experiência mudou minha vida e acho que mudaria a sua também. É sobre rever a percepção de tempo, em um lugar onde o relógio parece passar mais devagar. É sobre experimentar viver, mesmo que por um curto período, com o mínimo necessário. Sem internet, Netflix, bares, festas, bebidas, carros. É sobre se perceber pequeno diante de um mundo tão vasto e desconhecido como o da floresta. É sobre reconhecer essa nossa pequenez humana em comparação a dos animais no ambiente que deveria ser deles e de ninguém mais. É sobre se divertir com pouco e se despir de qualquer vaidade. É sobre ser mais igual. É sobre crescer.

E é também sobre voltar para a sua rotina na “civilização” e notar que talvez você não precise de tantas roupas assim, de um carro mais novo, de um celular de última geração. É sobre voltar com o ego menor e a visão de mundo amplificada. É sobre ler uma notícia envolvendo a floresta ou os animais e se importar. Verdadeiramente se importar e tentar fazer algo a respeito. É sobre diminuir as distâncias entre os mundos. É sobre plantar uma semente e deixar a árvore crescer. Mesmo que simbolicamente. Mesmo que dentro de você.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Barata Ribeiro, 716


Tem aquele filme do Woody Allen em que o protagonista, durante uma viagem a Paris, se lança solitário por passeios noturnos pela cidade-luz e descobre, ao badalar da meia-noite, ser transportado para a década de 1920, época que considera a melhor de todas. Ao embarcar nessa viagem ao passado, ele se encontra com artistas e intelectuais que admira e com os quais já havia tido contato pelos livros e demais obras, já que um encontro pessoal, até então, era impossível devido ao muro do tempo. A viagem é regada a festas com F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Salvador Dali, entre outros.

Gostaria de ser esse personagem de Woody Allen e viver uma experiência parecida. Mas, sem dúvida, meu destino seria outro: Rio de Janeiro, início da década de 1960. Mais precisamente, a Rua Barata Ribeiro, bairro de Copacabana. Número 716. Para ser ainda mais exato: o apartamento de Domingos de Oliveira.

Explico.

Assisti há alguns dias o último filme do diretor carioca, o excelente Barata Ribeiro 716. Nele, Domingos resgata os dias em que viveu no famoso apartamento em Copacabana, no início dos anos 1960. É um filme autobiográfico, portanto. Nessa época, pré-golpe militar, Domingos lotava seu apartamento e emendava festas regadas a muito álcool. No filme, Domingos é Felipe, interpretado por Caio Blat, que está genial no papel. Felipe tenta escrever um livro enquanto vive bêbado, de álcool e de amor, apaixonado pelas belas meninas que frequentam suas noitadas.

No filme, Felipe filosofa. Felipe chora. Felipe sofre de amor. Felipe se apaixona de novo. Pelas mulheres e pelos seus amigos. Felipe vive. Intensamente. De acordo com o que acredita. Por mais que o caminho não lhe pareça plano, ele segue em frente. Pois para ele, faz todo o sentido. O resultado é que você não vê saindo da tela um filme óbvio, tampouco uma história linear. O que você vê saindo da tela é amor. Isso mesmo e simples assim. Amor pela vida. Pela vida e tudo o que ela é capaz de nos oferecer. Amor daqueles que embriagam.


Domingos é um entusiasta da vida e deixa isso explícito em todas as suas obras. Por isso, retratando ele mesmo no auge de sua juventude, seria natural o nascimento de um personagem como Felipe. O mesmo amor que ele sentia nos anos 1960 ele mantém intocado até hoje, caso contrário não seria possível ter feito o filme que ele fez. Ao menos não com a sinceridade com que a história chega até nós. Domingos está no auge dos seus 80 anos e mantém sua juventude intacta, é impressionante e inspirador.

Dividindo com a gente essa passagem de sua história, Domingos nos lembra que as pessoas, mesmo sendo diferentes, sempre têm muito a oferecer e ensinar. Não precisamos pensar da mesma forma para compartilharmos a experiência da vida. O mundo poderia se parecer um pouco mais com o seu apartamento na BR: cheio de pessoas com os mais diferentes gostos, filosofias e formas de vida e que, apesar de não serem iguais, permanecem unidas. Essa é uma lição valiosa em tempos de polarização e individualismo. Dias de “pensou diferente, virou meu inimigo”.

Por isso, se eu pudesse, viajaria no tempo como no filme de Woody Allen. Com um bloquinho na mão, escutaria Domingos (ou Felipe), filosofar sem parar e não perderia uma frase. E daria um recado a ele. Que ficasse tranquilo, pois iria conseguir aquilo que estava buscando naquele momento: viver de sua arte. Contaria que, anos mais tarde, ele mesmo faria um filme narrando aqueles dias e influenciaria outros jovens, de uma época tão distante. E muito mais do que isso, ensinaria a gente a viver melhor.

Depois disso, brindaríamos a vida. E brindaríamos o amor!

P.S.: agradecimento especial à produtora do filme, Renata Paschoal, pois sem ela não teria conseguido assistir ao filme estando tão distante do Brasil. Obrigado, Renata! Um brinde a você, daqui das terras geladas do Canadá!

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sobre Senhoras e Cartas

No prédio onde moro trabalham duas senhoras muito simpáticas. Uma delas aprendeu com uma vizinha minha, também brasileira e que mora aqui há mais tempo, que nós brasileiros nos cumprimentamos com abraços e beijos, diferente de quase todos os canadenses que se limitam a um “olá, como você está?”, muitas vezes evitando qualquer contato físico ou se restringindo a um aperto de mãos. Descobrir que eu e minha esposa também somos brasileiros bastou pra que essa senhora passasse a fazer questão de nos cumprimentar com abraços e beijos calorosos.

Me ocorre agora que, talvez, grande parte desse jeito mais frio dos canadenses seja por desconhecimento a uma forma diferente de comportamento. Para essa senhora, pelo menos, pareceu uma descoberta feliz saber que poderia receber um abraço apertado ao invés de um cumprimento protocolar.

A outra senhora também é muito simpática. E tagarela. Frequentemente a encontro nos corredores do prédio, a cumprimento e, se eu der espaço, ela engata alguma história. Dia desses desci para jogar o lixo e, voltando para o apartamento, passei por ela, que estava com uma carta na mão e o olhar distraído sobre o envelope. Ao me ver, me cumprimentou, como sempre, comentou sobre o clima, como quase sempre, e então voltou sua atenção para a carta que segurava, pensando sobre algo para me dizer.

Contou então que tinha se mudado há muitos anos para Calgary, vinda de outra região do Canadá, deixando muita gente para trás. Dos parentes mais velhos, segundo ela, nenhum se lembrava de entrar em contato, simplesmente por esquecimento, problema de memória mesmo, comum aos mais velhos. Todos, com exceção de uma prima que havia escrito a carta que agora ela tinha em mãos. Essa prima fazia isso sempre, atualizava sua vida por carta. Era rotina entre as duas.

Você já sentiu saudade de algo que nunca viveu? Pois eu senti naquele momento. Saudade de me corresponder por carta. Tudo bem, não sou tão novo assim. Cheguei a viver um pouco disso. Lembro de receber cartas da minha mãe, por exemplo, e até de alguns amigos e namoradinhas. Inclusive, tenho algumas guardadas até hoje. Mas se tratava de algo opcional, não obrigatório. Tínhamos telefone e internet. Enviar uma carta era mais uma questão de charme, romantismo, algo assim. E, pelo que sei, até isso acabou. Evoluímos primeiro a ponto de não mais precisarmos da carta e depois a ponto de não mais querermos a carta.

Faz sentido. Se você tem Whatsapp, e-mail, Facebook, Skype e outras dezenas de opções mais fáceis de comunicação, qual o sentido de gastar tempo escrevendo uma carta que demorará dias para chegar? Sem contar o fato de que, provavelmente, quando a carta finalmente alcançar o seu destinatário, aquilo que você contou já vai ter ficado velho. Imagina então se a resposta vier também por carta? A pessoa vai comentar aquilo que nem faz mais sentido.

É estranho até pensar como um dia pudemos viver assim, sem termos outra opção. Mas confesso que achei bonito esse costume da senhora do meu prédio por ser, talvez, um saudosista em algumas questões. Prefiro jornal de papel ao digital e vitrola ao Spotify. Mas isso não quer dizer que eu queira abrir mão do Whatsapp. Não. O que tenho claro em mim é a convicção de que existem coisas que cabem melhor em uma carta escrita a mão do que em uma mensagem digitada no computador ou no celular.

Você pensa mais sobre o que dizer, escreve com mais capricho e cuidado e se aprofunda mais no que tem pra contar. A carta é um jantar especial com conversa a dois, enquanto o papo no celular é um encontro informal com diálogos mais superficiais. Cada um tem seu espaço. Sem contar o fato de que a carta se transforma quase em um documento. Você guarda como lembrança. Fui olhar agora, por curiosidade. A carta que a minha mãe me enviou e que tenho guardada até hoje é de 1996, ou seja, já tem mais de 20 anos!

A senhora do meu prédio encerrou aquele papo com um conselho simples, mas muito difícil de seguir. Disse que devemos manter contato com os parentes e amigos enquanto estamos aqui, pois depois que formos embora não será mais possível. Guardei aquela lição bem guardada. Como as cartas da minha infância.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O Vento Quente das Montanhas


No filme O Regresso, aquele que ficou famoso pela cena do urso devorando o Leonardo di Caprio, tem outra cena em que o personagem de Leo observa uma avalanche descendo de uma montanha distante. Tenho duas curiosidades sobre essa passagem. A primeira é que o diretor do longa, o mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu, criou a avalanche de verdade para gravar a cena, ao invés de produzi-la em estúdio com efeitos especiais. Usando alguns explosivos ele fez um mundo de neve despencar montanha abaixo, tornando a cena bem mais realista e... perigosa, talvez. A segunda curiosidade é que a montanha em questão fica bem aqui, no quintal da minha casa. Ou quase isso. Calgary se localiza na província de Alberta, na região das Montanhas Rochosas do Canadá. A tal cena foi gravada na Fortress Mountain, na mesma província onde atualmente habito. Agora me ocorre outro pensamento. O Regresso, justamente esse filme que teve algumas cenas gravadas em Alberta, deu o primeiro Oscar de melhor ator ao Di Caprio, encerrando o famoso jejum. Menos de um ano depois da premiação, me encontro vivendo aqui. O que isso significa?

Com certeza nada.

Continuando, então.

Apesar de poder avistá-las da cidade, ainda não tive oportunidade de conhecer as tais montanhas. Dizem que a paisagem é de tirar o fôlego. Mesmo assim, sem conhecê-las, já tenho ideia de seu valor. Pelo que me explicaram alguns canadenses, é de lá que sopra um vento chamado de “Chinook”. Um vento salvador, podemos dizer. Seu nome deriva de uma palavra na língua da tribo indígena Chehalis e seu significado seria algo como “comedor de neve”. E é uma excelente definição: vento comedor de neve. É mais ou menos isso mesmo que ele é.

Algumas vezes, durante o rigoroso inverno daqui, o tal vento aparece para aliviar um pouco o frio. Li que, em uma hora, a temperatura pode ser elevada em até 5º, algo assim. É exatamente o que vem acontecendo nas últimas semanas. Ontem, por exemplo, o termômetro passou dos dez graus positivos. Ou seja, inverno a la Brasil. Um alívio e tanto para quem estava enfrentando temperaturas próximas ao – 20º. Inclusive boa parte da neve aqui na frente de casa derreteu.

Já posso dizer que tenho um grande amigo aqui em Calgary: o tal do Chinook.

Assim que ouvi alguns canadenses me explicando o fenômeno do vento comedor de neve e apontando ele como responsável pelo fato de o inverno de Calgary ser mais suportável do que em outras regiões do Canadá, me peguei pensando nele como uma excelente metáfora da vida. Acho que todos nós deveríamos estocar um pouco desse vento, como diria uma amiga nossa. Para nos aquecer durante os rigorosos invernos que a vida nos apresenta.

Se o relacionamento deu uma esfriada, se não encontra motivação no trabalho, se a cidade em que vive parece não ter mais nada para oferecer, se nada na TV lhe prende atenção, se a vida está um tédio, use um pouco do vento para aquecê-la. Se está passando por uma fase mais difícil, uma separação, a perda de um ente querido, um problema financeiro, recorra ao vento. O vento pode ser o que você quiser e, na verdade, só você sabe o que ele deve ser. Um jantar especial com sua esposa, um projeto novo no trabalho, uma mudança de cidade, o renascimento daquele plano distante do qual você tinha desistido, uma viagem, uma visita aos seus pais, um passeio com seu irmão, um trabalho voluntário, um novo curso. Pode ser tudo, enfim. Às vezes a vida parece ser um inverno interminável e o que nos resta é aproveitar o vento quente que não precisa vir das montanhas. Nós mesmos podemos soprá-lo.

Afinal, no tédio da vida também é possível haver poesia. No inverno também pode existir verão.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

As ruas daqui e as ruas de lá

Aqui no Canadá voltei a caminhar. Não exatamente por exercício físico nem para me manter ativo. Nada disso. Voltei a fazer das minhas pernas meu principal meio de transporte.

Olho no mapa. Se o local onde preciso ir está a menos de cinco quilômetros de distância, calço as botas e me lanço nas calçadas cobertas de gelo. Só se for muito mais distante que isso que recorro ao transporte público. Hoje, por exemplo, caminhei treze quadras para ir e treze quadras para voltar do meu destino. Estava um clima agradável mais cedo, chegou a fazer 5º, eu acho, então cumpri a tarefa sem maiores apertos.

Isso é outra coisa curiosa. Tenho observado que o corpo se adapta rápido ao seu novo ambiente. Até pouco tempo, residindo em uma das cidades mais quentes do Brasil, com 5º provavelmente eu estaria usando todo meu estoque de casacos e não sairia de dentro da coberta, se tivesse escolha. Aqui, onde no inverno as temperaturas normalmente estão abaixo de zero e não raro atingem -30, 5º graus é quase verão. É verdade. O corpo realmente sente isso. Mas estou desviando o assunto.

Ir de um lugar para outro caminhando e fazer disso uma rotina me fez lembrar a infância, é isso que quero contar.

Recordo o caminho exato até uma das escolas em que estudei. Morava relativamente perto, uns quinze minutos a passos médios. Saía de casa à esquerda, virava à direita, depois à direita de novo e ia embora. Algumas quadras depois, à esquerda de novo e já estava na rua da escola. Fazia esse caminho a pé quase sempre.

Lembro também de outra época, em que costumava ir com uma das minhas irmãs de bicicleta até outra escola em que estudei. O maior perigo era quando chovia e as ruas, que eram de terra, viravam um lamaçal só. Eu não guiava muito bem, então não era incomum eu perder o controle, esbarrar em algum obstáculo invisível e cair. Quando encontrava um mar de lama lá embaixo, o estrago era imenso. Você pode imaginar o que acontecia com o uniforme branco. Outro risco, naturalmente, eram os carros. Não sei como passei ileso por esse período, sem sofrer um acidente pior, porque realmente guiava mal.

Com o passar dos anos, fui deixando esse hábito de lado, assim como tantos outros brasileiros. Pelas histórias dos jornais, pelas conversas com os vizinhos, o medo de sair a pé em uma grande cidade brasileira, é totalmente embasado. Se você não conhece alguém que foi assaltado nos últimos meses, é um privilegiado. O descaso do governo com a segurança pública não nos tirou a liberdade de ir e vir, nos tirou a liberdade de ir e vir sem medo. Porque você até se arrisca, mas não usa celular em público, evita determinadas regiões e horários e, claro, sente medo enquanto está exposto. A violência no Brasil nos obriga a sermos paranoicos.

Infelizmente, é assim. No lugar de onde eu venho e que chamo de casa dificilmente faria o que faço aqui. Uma coisa simples e prazerosa, e que deveria ser um direito básico. Hoje pensei em tudo isso enquanto caminhava. Justamente porque, ao caminhar sem paranoia, meus pensamentos tomam formas e viajo, vou pra onde Deus quiser... como diz a canção. Canção que, aliás, eu adorava escutar quando era criança.

As ruas daqui, pra mim, têm gosto de infância.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Estou bem e vivo


Tem uma frase do Domingos de Oliveira que diz assim: “a verdadeira liberdade de um homem não é seguir seus impulsos, é seguir suas escolhas”. Vir para o Canadá não foi um impulso meu, na verdade nem poderia. É algo que precisa ser minimamente planejado e depois, para se colocar em prática, existem algumas obrigações burocráticas – passaporte, visto, etc. Ou seja, foi realmente uma escolha. Podendo seguir essa escolha, penso que exerci minha verdadeira liberdade, como diz Domingos.

Estou muito feliz pela repercussão do meu último texto sobre o impacto inicial na chegada por aqui. Foram tantos compartilhamentos, comentários e, principalmente, trocas de experiências que me emocionaram. Escrever, para mim, sempre foi necessariamente um ato sem pudor. Penso que para alguém se traduzir em palavras é preciso antes se despir. Com o último texto não foi diferente e acho que esse foi o principal motivo por tantas pessoas se identificarem e espalharem o texto por aí.

Li cada um dos comentários. Infelizmente é complicado de responder um a um, mas saber que tantas pessoas se identificaram com o que eu narrei foi incrível. Obrigado por compartilharem suas experiências comigo! Li histórias de quem há muito deixou o Brasil, rumo ao desconhecido, em épocas bem mais difíceis que a minha e disseram sentir exatamente o que exprimi no texto. Recebi também mensagens de pessoas que sonham em viver algo parecido e me agradeceram por mostrar a experiência por outro lado. Enfim, foram muitos comentários positivos e neles é que escolhi focar.

O “morrer” no texto foi usado como uma figura de linguagem para descrever a transformação da minha vida. É bom reforçar. Não estou depressivo, nem em crise, nem infeliz, nem arrependido, nem nada. Pelo contrário. Estou vivo, muito feliz, adorando estar em um país diferente, cada dia aprendendo mais o inglês e sobre a cultura por aqui. Como mencionei no primeiro texto e acho que alguns passaram batido, essa é uma experiência que eu recomendo para todo mundo, apesar do peso que vem junto e te faz “morrer”.

Tem outra frase do mesmo Domingos de Oliveira que diz assim: “o que importa é ter ideais. Nem que seja para perdê-los e sair procurando outros”. Ao vir para o Canadá, deixei alguns dos meus ideais um pouco de lado e vim fazer exatamente isso – procurar por outros. Seguirei dividindo essa nova busca com vocês. Vamos juntos!

sábado, 7 de janeiro de 2017

Saí do Brasil. E morri.


Estou morando no Canadá há quase um mês. Minha esposa foi aprovada em uma seleção para fazer seu doutorado na cidade de Calgary, a terceira maior do país, e resolvemos vir assim, de mala e cuia. Calgary é um lugar curioso, é chamada pelos íntimos de cowtown, cidade das vacas em uma tradução literal, termo usado para um lugar com fazendas em seus arredores, com um clima mais interiorano, talvez. Só para se ter ideia, o maior rodeio do mundo acontece aqui, então realmente é um lugar de Cowboys e Cowgirls. Mas pretendo contar mais da cidade e da vida aqui depois. Quero focar agora na experiência de se fazer as malas e sair do seu país, seja ele qual for.

Apesar de ser pouco tempo de experiência, já pude comprovar algumas impressões que tinha sobre a mudança para o exterior. O que acontece quando você faz as malas e embarca no avião com destino a um lugar completamente diferente do seu? Você morre. Isso mesmo, você morre. Eu morri quando vim.

Começa pelo fato de normalmente, nesse tipo de situação, você preparar uma festa de despedida com os amigos e parentes, o famoso “bota-fora”. Seria o equivalente ao velório. Um pouco mais alegre, concordo. Acredito que possa ser comparado com um velório no México. Dizem que lá a morte é vista como algo natural e bom, então as despedidas são muito mais festivas do que no Brasil.

Durante esse momento, costuma acontecer um fenômeno semelhante ao de uma despedida por conta da morte. As pessoas fazem declarações sobre você que nunca fariam em situações normais, de rotina. Colegas de trabalho dizem o quanto admiravam a sua dedicação à empresa e o quanto se espelhavam em você, parentes e amigos choram e dizem o quanto vão sentir sua falta pelo quanto que gostam de sua companhia, que você é um exemplo de ser-humano, isso e aquilo, coisas assim. Aí eu penso, por que as pessoas não falam isso em situações normais, de dia a dia mesmo? Esperam você morrer ou partir para bem longe para dizer o que realmente sentem. Mas isso é assunto pra outro texto.

Depois do “bota-fora”, vem a partida de fato, ou seja, o embarque no aeroporto. Normalmente só os mais próximos participam desse momento, às vezes ficando restrito aos familiares. Comparo esse instante ao enterro. É o pior momento, o mais dolorido. Poucos seguram o choro e alguns que se mostravam equilibrados até então, se deixam envolver pela tristeza do adeus. Alguns preferem nem ir até o aeroporto para não ter que assistir a partida. Além disso, realmente é um pouco como morrer, pois você não sabe quando reencontrará essas pessoas que até então faziam parte de sua rotina. A diferença é que hoje temos o Skype, ou seja, podemos manter um contato do além.

Claro que estou fazendo aqui um paralelo e uma comparação absurdos, apenas para simbolizar um pouco o que representa uma despedida como essa. Tenho consciência de que nada pode se comparar a morte de um ente querido, por exemplo. É bom explicar.

Depois da despedida, chegando no país estrangeiro, você morre mesmo. Pois o teu antigo “eu” deixa de existir. Falando por mim, o Felipe que deixei no Brasil morreu para todo o sempre. Por quê? É simples. Ao vir pra cá, senti que mudei e que estou mudando a cada dia. Não que eu tenha, repentinamente, me tornado alguém melhor ou superior. Nada disso. Vou tentar listar abaixo alguns processos já comprovados por mim que explicam melhor:

1. Perda das referências

Ao mudar para o exterior, você perde todas as suas referências. No Brasil, eu era filho do Givaldo e da Maria, enteado da Carla, trabalhava na empresa tal, no cargo tal, nascido na maior cidade do país, com familiares espalhados pelo Brasil inteiro, era amigo de siclano e beltrano e etc. No Canadá, ninguém me conhece ou conhece alguém da minha família ou amigo, eu não conheço ninguém, ninguém fala minha língua, eu não falo direito a língua daqui, ninguém conhece a empresa ou o segmento em que eu atuava no Brasil, pouquíssimos sequer conhecem o lugar de onde vim, ou seja, não tenho referência nenhuma aqui. Nenhum lugar em que me apoiar, vamos dizer. Você não perde só o chão, você perde as paredes, o teto, tudo.

2. Processo de “desipnose”

Dia desses assisti a uma entrevista do compositor Rodrigo Amarante, pelo qual tenho grande admiração. Atualmente, Rodrigo vive em Los Angeles, nos Estados Unidos. Falando sobre como é viver em um país estrangeiro, ele se refere ao processo de adaptação como uma “desipnose”. Mudando para o Canadá, entendi o que ele quis dizer. No Brasil, eu tinha uma rotina que, para mim, definia quem eu era. Acordava todo dia no mesmo horário para fazer todo dia o mesmo trabalho e nos tempos de folga, também fazia basicamente os mesmos programas. Ao sair completamente dessa rotina e perder totalmente as referências que mencionei no item anterior, só me restou... eu mesmo. Ou seja, o meu corpo é o mesmo, o sangue que corre nas minhas veias é o mesmo, meu cérebro é o mesmo, meu jeito de pensar é o mesmo, porém, agora eu tenho quase nada em que me apoiar, nas coisas que antes eu acreditava que definiam quem eu era. Assim, descubro que eu não sou o meu trabalho, nem a minha rotina, nem as pessoas com as quais convivo. Eu sou eu e nada além disso. Seja no Brasil, aqui ou na China. Com isso, você é obrigado a se conhecer melhor e a perceber que você é muito menos do que imaginava. Menos não no sentido de importância e sim de simplicidade. A forma como os estrangeiros te enxergam também é diferente de como te viam no Brasil e de como você mesmo se via e, na verdade, você aprende que ninguém está certo.

3. Exercício da Humildade

Ao viver em um país que não é o seu, você é obrigado a ser mais humilde. Começando pela dificuldade da língua. Se você for como eu, que não tenho o domínio pleno do inglês, certamente terá dificuldade no dia a dia. Em algumas situações eu apanho para pedir o prato que quero no restaurante, então como não vou ter dificuldade em conversar com um nativo? Ou seja, as tarefas simples da rotina se tornam grandes missões. É como voltar a ser criança e reprender a falar, ler e escrever. Além disso, tem a questão de você não ter mais nenhuma referência no novo lugar. No Brasil você era diretor de uma empresa, com um currículo de dar inveja, morava no lugar tal, frequentava lugares assim e assado. E agora? E no novo país? Independente de qual seja a sua situação, de uma coisa você pode ter certeza, você vai ser obrigado a RE-CO-ME-ÇAR. E para isso, sem a menor dúvida, precisará ser muito mais humilde.

Acredito que tenham outros pontos que façam você enxergar que o seu antigo eu deixou de existir ao se despedir de seu habitat natural. Aprender a andar na cidade, se acostumar com a cultura e os costumes locais, com o clima, a lidar com a distância da família e a dor de ficar ausente. Afinal, você é obrigado a acompanhar de longe os aniversários, as formaturas, os almoços de domingo, as festas, doenças, crescimento das crianças, eventos nos quais você sempre estava presente. Como não se tornar mais forte com isso? Como não aprender a lidar melhor com as despedidas? Ou você aprende ou coloca o orgulho de volta na mala e leva ele de volta com você ao seu país.

Com certeza, eu já morri um pouco com essa mudança. Sinto que já estou diferente, apesar do pouco tempo aqui. E vou morrer muito mais vezes, tenho certeza. Ao mesmo tempo, tendo a convicção de poder renascer no instante seguinte, em uma versão melhor do que a anterior. Sem dúvida, viver no exterior é uma experiência que indico a todo mundo. O mundo externo passará a ser visto de outra forma por você, e o teu infinito particular, como diz a Marisa Monte, também.

Morar longe é saber morrer muitas vezes para viver mais.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O Retrato Rasgado

As fotos de uma vida inteira podem caber no bolso da calça.

Temos pen-drive, celular, cartão de memória, tablet, notebook, computador e mais um zilhão de ferramentas para nos auxiliar nesse arquivo infinito enquanto dure. Infelizmente esse fenômeno da tecnologia colocou fim a um hábito comum a maioria das famílias: se reunir para ver fotos. A lembrança que tenho é de retirar do alto do armário caixas e mais caixas, leva-las até a sala para a visita do dia ou para nós mesmos, e começar a retirar um a um os álbuns que contavam a história da família. A cada mergulho no passado perdia-se horas olhando as imagens e comentando o quanto fulano era magro, siclano era cabeludo e assim por diante. O tempo em casa parava e, devagarinho, ia andando para trás. Hoje raramente dedico um tempo para organizar as minhas fotos e muito menos para revê-las. Tenho uma pasta no meu desktop e vou salvando tudo lá, de tempos em tempos, sempre que preciso esvaziar a memória do celular.

A tecnologia também nos trouxe muito mais facilidade em registrar os momentos, através dos celulares e suas câmeras acopladas. Talvez essa facilidade tenha vulgarizado o ato de fotografar. Ou seja, o nosso avanço transformou não só a maneira de vermos as fotos, como também de registrarmos as fotos. Antigamente comprávamos os filmes com seus limites de poses. Se em uma viagem levássemos um de 36, sabíamos que aquele seria o número máximo de fotos que poderíamos fazer com aquele filme. Cada clique ganhava a importância de um único. Cada registro como se fosse o último. Caprichávamos, fazíamos pose, se o lugar não fosse tão bonito, guardávamos para depois. Com a aposentadoria do filme e a facilidade do celular, passamos a fotografar os pratos de comida, os copos de bebida, o espelho, e principalmente, nós mesmos – na cama, na rua, na festa, em qualquer hora, em qualquer lugar. Na fotografia de celular somos todos Narciso.

Assistindo ao novo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, o excelente e dolorido “Julieta”, um detalhe me chamou a atenção para essa nossa relação com a fotografia. Na trama (não entrarei em detalhes para evitar spoilers), mãe e filha possuem uma relação complicada. A certa altura, a mãe recolhe um envelope que havia guardado e nele está uma fotografia totalmente rasgada, dela com a filha. Como um quebra-cabeça, ela remonta a fotografia, peça a peça. A imagem sendo um retrato fiel da relação das duas. Colando a fotografia, ela mantinha a esperança na reconciliação. Na poltrona do cinema, me peguei pensando em como essa cena, por menor que fosse dentro do filme, para mim era imensa! A mãe rasgara a foto em fúria, como que enterrando para sempre a filha dentro de si, cortando qualquer vínculo que ainda mantivesse com ela. Um parto ao contrário! E depois, cuidadosamente, guardou os pedaços em um envelope! Ou seja, xingou a filha, pôs de castigo, para depois beijá-la e colocá-la delicadamente para dormir. Toda mãe guarda os pedaços do retrato rasgado, nenhuma mãe desiste de seu filho.

No escuro do cinema, também me peguei pensando em como essa cena acontece nos dias atuais, com cada vez menos fotos para serem rasgadas. Deletar uma foto do celular não tem o mesmo sentido de se rasgar um retrato. Depois de uma desilusão amorosa, por exemplo, rasgar o retrato da outra pessoa recarrega a energia e dá força para seguir em frente. Provavelmente você já experimentou isso alguma vez na vida. Não tem comparação com o clique de um botão de “deletar”, gesto frio e calculista, indigno dos românticos. Se ao rasgar, podemos fazer como a mãe do filme do Almodóvar e guardar os restos, ao deletar sempre teremos a segurança de um “backup”, em caso de reconciliação.

E mesmo que a gente queime os restos, delete todos os arquivos, acabe com todas as cópias para nunca mais, ainda nos restará a memória. Essa ainda é a tecnologia mais poderosa. Não apaga de acordo com a nossa vontade, deleta somente o que não tem importância.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

O Fantasma de Vinte Anos

Todo dia ele faz tudo sempre igual.

Acorda às seis da manhã, desliga o despertador do celular, aproveita o aparelho nas mãos para olhar as últimas novidades das redes sociais, a previsão do tempo, o e-mail, e só depois de uns dez minutos é que se vira para o lado, dá um beijo na esposa que levanta as oito e ainda está dormindo, e se ergue da cama. Afinal, não tem escolha.

Vai até o closet, separa cueca, meia, calça e camisa e deixa cada peça, uma sobre a outra, lhe esperando. Entra no banheiro. Primeiro liga o chuveiro e só depois tira o pijama, dá o tempo certo de a água esquentar. No banho, sempre a mesma sequência. Primeiro o cabelo – o pouco que lhe restou já está grisalho, muito diferente da cabeleira farta dos seus vinte anos – sempre pensa nisso enquanto esfrega os poucos fios com as pontas dos dedos. Por último os pés. Desliga o chuveiro e sai. Seca o corpo começando pela cabeça, que já está no escritório. Será que responderam aquele e-mail? Será que fulano finalizou a planilha que eu pedi? Será que o cliente pagou aquela conta? Será que será que será? Afinal, não tem escolha.

Já seco, veste as roupas que separou. Se olha no espelho e, apesar de não ter mais vinte anos, não se acha exatamente feio. Pensa que a esta altura do campeonato até que está dando um caldo. No caminho da cozinha, passa pela sala de televisão a tempo de ligar o aparelho para assistir ao primeiro telejornal da manhã. Vai preparar seu café, pão de forma com manteiga e queijo e um café amargo, sem açúcar, para acordar de vez. Ao fundo, a voz do apresentador lendo as primeiras notícias do dia. Bebe o último gole, coloca prato e xícara no fundo da pia e volta ao banheiro, dessa vez para escovar os dentes. Dá um último beijo na esposa sonolenta desejando bom dia e sai de casa para enfrentar mais um dia. Mais um dia em que fará tudo igual, mais um dia sem surpresa, mais um dia do mesmo dia, mais do mesmo. Mais um. Afinal não tem escolha.

Se alguém perguntar, se dirá feliz. Profundamente feliz. Afinal, é a vida que todos vivem, por que raios não seria feliz?

Entra no carro e, antes de dar partida, sente que está sendo observado. Estranha sensação. Escuta uma risada e não tem a menor dúvida de que sim, está vindo de dentro do carro. Enxerga pelo retrovisor alguém sentado no banco de trás. Alguém que o cumprimenta, com a maior naturalidade:

- E aí, bonitão?

Depois do susto, resolve não olhar pra trás para perguntar:

- Quem é você? Como entrou aqui?

E pensa “tomara que ele leve tudo e me deixe em paz, pode levar carteira, celular, o carro, o que ele quiser, mas que não faça nada comigo”. Parece que o indivíduo lê seus pensamentos, porque o surpreende:

- Está com medo, doutor? Calma que isso aqui não é assalto não. Sequestro... talvez. Mas não é pela grana, não.

- Como assim? Vai me sequestrar?

- Ô doutor, não está me reconhecendo não? Tudo bem que faz tempo, mas não é tanto assim.

Como assim um conhecido havia invadido seu carro às 7h da manhã? Com qual objetivo? Ele finalmente decide olhar para trás para descobrir quem dos seus amigos seria capaz de uma brincadeira daquelas e é quando dá de cara com... ele mesmo. Estava ali, no banco de trás, exatamente como se estivesse mirando um espelho, só que uns vinte anos mais novo. A cabeleira farta, aquele jeitão largado, a camiseta estampada com uma banda de rock da qual não se recordava.

- E aí, doutor? Lembrou?

- E-e-eu não estou entendendo... Vo-vo-você...

- Sim! Eu sou você, você sou eu. Muito prazer! Posso pular pro banco aí da frente? Vamos dar uma volta, no caminho eu explico.
Antes que ele respondesse, o seu eu de vinte anos saltou para o banco da frente e em seguida ordenou:

- Tá esperando o quê? Vambora!

- Pra-pra-pra onde?

- Para a praia, para o shopping, para o parque, pra onde você quiser! Vamos que o papo será longo e eu não tenho muito tempo pra ficar aqui.
Arranca com o carro e seu eu com vinte anos dispara a falar:

- O negócio é o seguinte. Eu vim do passado porque não podia mais me aguentar, assistir a esse espetáculo da decadência sem tomar uma atitude. Vim para te salvar!

- Espetáculo da decadência?

- Exato! A sua vida! A vida que você escolheu! Mas eu não escolhi! É justo? Você aí, todo engomadinho, de camisa social bem lavada e passada com o terno último modelo da loja mais cara, sapato impecável... Achando que contribui com a sua parte para nosso belo quadro social, como diz a canção. O que aconteceu com as camisetas do Chê? O que aconteceu comigo?

- Engraçadinho. Se eu for trabalhar com a camiseta do Chê eles me demitem na mesma hora! Você surgiria assim, do passado, para pagar minhas contas? Du-vi-do! E o que aconteceu com você? Você... você... você virou eu, oras!

- Nem fala... Por que você não troca de emprego? Se você não pode usar uma camiseta do Chê lá é porque não é o lugar certo pra você!

- Você não entende...

- Não entendo o que?

- Tenho conta pra pagar, família pra sustentar, preciso desse emprego. Foi onde me dei bem, onde consegui conquistar tudo o que tenho!

- Mas você não gosta dele!

- Quem disse?

- Eu sou você, esqueceu?

- Putz...

- Não me venha com essa que não cola! Não me diga que está feliz! O que aconteceu com o moleque sonhador? Aquele que morou um ano em Cuba e que iria escrever um livro com todas as histórias que viveu na ilha de Fidel? Você nunca passou do primeiro capítulo! E aquele garoto que queria conhecer o mundo inteiro mas só viaja se for pra comprar roupa e os últimos produtos da Apple? Você o matou quando aceitou viver essa sua vidinha! Sim, vi-di-nha, no diminutivo! Que vergonha que você me dá. Vivendo todo dia exatamente igual, fazendo exatamente as mesmas coisas, exatamente na mesma ordem e pensando “não tenho escolha. Tenho que sustentar família, tenho isso, tenho aquilo...”. Balela! Você só pensa no dinheiro, virou refém dele, se rendeu à sociedade do desempenho. Há quanto tempo você não visita sua mãe? Nossa mãe! Há quanto tempo você não conversa com a sua esposa? Sempre a mesma desculpa... “não tenho tempo...”.

- Estou sonhando, só pode...

- Não está! A sua vida sim é que é um pesadelo! E me agradeça por ter aparecido aqui pra te despertar. Vai, me diga sinceramente, você não tem saudade de quem você era?

- Lógico que sim! Mas não tenho escolha! Não poderia viver eternamente dentro daquelas ilusões de jovem. Todo mundo tem que amadurecer um dia. E as coisas mudam, os sonhos mudam.

- Quer dizer que você ainda tem sonhos?

- Claro que sim!

- Qual, por exemplo?

- ...

- Aposto que você pensou em casa da praia, carro novo, uma casa maior. Não foi?

- Hu-hum

- Tá vendo. Você virou aquilo que mais condenava. Aquele tipo de homem que mais te enojava. Há quanto tempo você não faz algo que realmente te dá prazer?

- Tá bom, chega! Já entendi. Reconheço. Eu mudei. E queria estar diferente, óbvio que queria. Sou frustrado! Um artista frustrado, um escritor frustrado, um viajante frustrado! Mas o que eu posso fazer se eu não tinha talento pra essas coisas? Insistir nelas é que seria um erro. Eu viveria de quê? De luz?

- Mentira! Você sabe que tinha talento. Mas quando se isolava pra escrever ficava constrangido com os parentes te pressionando. “Quando você vai arrumar um trabalho de verdade?” “E o casamento, meu filho, quando vai sair?” Você não aguentou e seguiu a vida que os outros escolheram pra você!

- Ok, ok. Mas e aí? Não posso me torturar por algo que já passou. O passado passou e ninguém consegue mudar.

- Aí está! Falou o que eu queria ouvir. O passado a gente não muda, mas o futuro sim! Ou você pretende morrer agora?

- Engraçadinho...

- Reaja! Comece a mudança hoje, resgate seus sonhos, seja eu de novo, seja você de verdade! Acorde para a vida. Se você for viver essa vidinha, acho melhor parar agora e desistir.

- Não sei...

- Vai! Faça isso por mim, por nós. Perai, já sei. Vou te convencer. Encosta o carro.

De repente, o seu eu de vinte anos saca um telefone celular do bolso.

- A-há! Quando eu tinha vinte anos ainda não tinha celular, onde você arrumou esse?

- Eu estou no presente, esqueceu? Perai, só um pouco, vou chamar mais dois amigos pra animarem esse papo.

- Como assim?

- Alô! Estamos aqui na rua tal, número tal, venha e traga o velho também. A situação está mais difícil do que imaginei.

- Quem você chamou? Não estou entendendo mais nada. Olha, foi um prazer, agradeço muito a sua disposição em me ajudar, mas estou feliz com a minha vida, a vidinha como você diz, mas estou realmente atrasado para o serviço e tenho que... tenho... é...

Neste momento, do lado de fora do carro ele avista dois homens, duas versões dele mesmo, e lhe vem novamente a sensação de observar um espelho ou clone ou sei lá. Porém, os dois, dessa vez, são mais velhos que ele. A versão de vinte anos ordena:

- Vamos descer do carro, conversamos com eles dois nesse café da esquina.

Eles descem, cumprimentam os dois senhores, entram no café e escolhem uma mesa discreta no fundo do salão.

- Por favor, me deixe apresentar, essas são as versões mais velhas de nós dois.

Um dos senhores, o mais jovial, solta uma gargalhada e emenda:

- Versão mais velha!? Hahahaha Você já olhou o estado dele?

O outro mais velho apenas observava com olhar carregado, os ombros caídos e um ar de total desinteresse pelo que estava acontecendo ali.

- Está vendo? – questionou seu eu de vinte anos

- O quê, exatamente?

- Esse senhor alegre aí é a sua versão daqui quinze anos, se você me ouvir e seguir o que estou te falando. Ele viajou o mundo, fez tudo o que deu na telha nos últimos anos de suas vidas. Não tem um tostão guardado, mas é feliz. E se quiser ouvir suas histórias você vai precisar de pelo menos um dia inteiro nesse café.

- Ahn. Ok. E o outro?

- O outro é você amanhã. Exatamente você. Se você optar em ficar nessa mesma vidinha que está levando. Falando nisso, não podemos nos demorar na rua pois a saúde dele é frágil. E mesmo assim, você não aguentaria muito tempo. Ele é um velho ranzinza, chatíssimo. Se quiser puxar qualquer história do passado, é só trabalho, trabalho, trabalho. A maior emoção que ele teve na vida foi quando ficou preso no elevador do serviço, esses dias. Deprimente.

O seu eu velho ranzinza decide interromper:

- Não ouve o que esse moleque está dizendo. Você está no caminho certo. Já comprou apartamento, teu carro é do último ano, falta só mais um pouco para assumir como presidente da firma. E vai assumir. Não queria te contar, mas vai ser em breve. Vai ter um bom aumento e seus milhões no banco vão multiplicar. Dinheiro suficiente para até teu neto não precisar mais trabalhar. Se bem que isso vai ser meio difícil, já que nem filho você tem. Mas tudo bem, melhor assim. Fica tudo com você, não precisa se preocupar em dividir. Depois que você der esse salto na vida, vai ver! Todo mundo na rua, no condomínio, no futebol, todos te admiram e comentam o quanto você é poderoso. Você será bajulado! Não dê ouvidos a esses dois inconsequentes. Siga nesse...

E de repente para de falar interrompido por um ataque de tosse que parece interminável. É quando o seu eu velho mais jovem resolve participar também:

- Se quiser terminar doente como ele, continua assim. Mas só te digo uma coisa. O México é lindo! O Japão é incrível! Na Europa, fiquei fã da Alemanha, tudo lá funciona! Se bem que o interior da França também é magnífico. Mas sempre fico em dúvida na hora de escolher a melhor viagem, porque o mochilão por toda a América do Sul ficou na memória também! Nos divertimos demais! E o nosso livro com as histórias de Cuba foi um sucesso, por incrível que pareça! Vendeu que nem água, demos entrevista no Jô e tudo. Foi bom porque te ajudou a se reerguer, já que um pouco antes você teve que se desfazer do apartamento porque a grana apertou. Você teve uma crise existencial com a mudança de estilo de vida, torrou muito dinheiro e, como os tempos eram outros, quando viu já havia acabado com quase tudo. Mas fora esse contratempo, que vida tivemos! E tudo graças ao nosso eu de vinte anos, que lhe acordou do pesadelo.

O seu eu de vinte anos interrompe:

- Tá vendo só? Ficou mais claro? Agora vamos deixar esses dois e retomar nosso caminho.

Eles voltam para o carro e, antes de entrar, seu eu atual interrompe seu eu de vinte anos:

- Não precisa entrar. Já entendi o que veio fazer aqui e lhe agradeço. Ainda estou um pouco confuso, é verdade. Mas se tudo isso realmente não for um sonho, já sei o que fazer.

- Ah, se todos tivessem um fantasma de vinte anos que nem eu. Os epitáfios seriam bem menos tristes.

Apertam as mãos e seu eu atual acelera o carro em direção ao apartamento. Ao chegar, toca a campainha insistentemente até que a esposa abre a porta, assustada:

- O que houve? Você não está no trabalho? Aconteceu alguma coisa?

- Não aconteceu, mas vai acontecer!

- Ahn?

- Faça suas malas... Rápido!

- Como assim? Você está bem? Não estou entendendo!

- Sim, perfeitamente bem. Faça suas malas, logo, vamos!

- Iremos pra onde?

- Pra Cuba!!!

- hahahaha... enlouqueceu de vez!

- É sério. Preciso refazer o caminho que fiz quando tinha 18 anos e morei lá. Preciso refrescar a memória pra escrever o livro que parei no primeiro capítulo...

- Mas e a firma? Você pegou férias?

- Não. Depois envio um e-mail avisando que não irei mais.

Ele ia falando, trocando a roupa, fazendo a mala, tudo ao mesmo tempo, enquanto a esposa observava sem entender bulhufas. E ele continua...

- Confie em mim. O livro será sucesso!

- Como você sabe?

- Eu vim do futuro e contei, vou dar até entrevista no Jô. Eu sou divertidíssimo no futuro, você vai ver! E eu não vou ficar totalmente careca!!!

- Amor, o que você tomou!? Tá me dando medo!

- Confia em mim! Eu acordei pra vida! Um dia você vai entender e agora terei tempo de sobra para contar, vamos conversar tanto de hoje em diante!!!

Ele beija a esposa como há muito não fazia. Os dois terminam as malas e saem apressados até o aeroporto. No caminho, ele avista na calçada seus outros três eus, conversando entre si. E identifica cada um à sua maneira, um gargalhando, o outro fazendo um gesto sutil de agradecimento e o último balançando a cabeça de um lado para o outro, com ar de reprovação.

- Ah, vá a merda, velho ranzinza!

- Ahn?

- Nada não... Na viagem, quem sabe, eu explico.

- E onde você está indo? O aeroporto fica para o outro lado!

- Vamos passar na casa da minha mãe. Quero dar um beijo nela antes de irmos.

E continuou seu caminho.

Pela primeira vez nos últimos vinte anos, sem fazer muita ideia do que seus próximos dias lhe reservariam. Só com uma certeza: ainda teria filhos. Muitos.

Afinal, agora tinha escolha!

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Leia o que te digo

Leia o que te digo
Escute o que te escrevo
Ouça o que te aponto
Se esconda onde te vejo

Olhe o que te grito
Volte onde te alcanço
Venha quanto te odeio
Fuja quando te amo

Seja para sempre
O que já se passou
Lembre eternamente
O que está por vir

Enquanto me viro do avesso
E dentro de você
Procuro por mim

sábado, 21 de novembro de 2015

Minha caneta vai pro fundo da gaveta

Como sempre, preciso escrever. Quando digo “preciso” significa mesmo uma necessidade e não um desejo banal. Sujar o papel com a tinta da caneta, para mim, é tão vital quanto puxar o ar para dentro dos pulmões. Deixá-lo de fazer reduz os dias que ainda restam. Todo escritor é, por natureza, um obcecado. Só sente o mundo escrevendo, escancara aquilo que calaria pelas palavras impressas, e, sobretudo, escreve para manter-se em pé. Pois é assim que tem de ser.

Dito isso, devo agora confessar: estou doente. Ou melhor, esse meu eu-escritor é que está. Não tenho dúvida de que a doença que o abateu é a pior que poderia enfrentar, pois tem como principal sintoma nada menos que a falta de assunto. Para ele, é como morrer! Não ter mais sobre o que escrever. Não ter um tema que desperte interesse e inspiração suficientes para desenvolver pensamento particular que valha a pena ser compartilhado. Sua inspiração voou para longe ou o mundo é que em um instante ficou vulgar e desinteressante demais.

Tenho tentado convencê-lo de que a doença é curável, de que a inspiração dará o ar de sua graça quando menos se esperar, pois é essa sua natureza. Hoje, depois de um bom tempo, finalmente consegui tirar meu eu-escritor da cama, estava com a aparência um pouco melhor e seu olhar curioso de poeta buscando identificar os detalhes de cada coisa. Todo poeta é, antes de tudo, um curioso! A doença parece ter dado uma trégua, mas agora apesar de não lhe faltar assunto o que ele perdeu foi o interesse em colocar seus pensamentos no papel. E me deu suas razões.

Hoje há um excesso de informação e opinião para onde quer que você olhe. O fenômeno das redes sociais criou nas pessoas uma necessidade intensa de compartilharem suas opiniões sobre tudo. Sobre tudo mesmo! Alguém importante espirrou do outro lado do mundo, o cachorro da atriz revelação morreu, o casal de artistas que parecia inseparável se separou, tudo isso é motivo para correrem para o computador ou para o celular e postarem suas opiniões. Em geral, tem aqueles que lamentam o fato, aqueles que lamentam o fato de existirem aqueles que lamentam o fato, aqueles que questionam a razão de todos estarem falando sobre aquele fato, e por aí vai. O que não se pode é ficar de fora e tentar sempre ser original em suas críticas!

Acho ótimo que se tenha um espaço livre para o debate. Para mim, é democrático e enriquecedor. O Facebook é a mesa de bar virtual! O que o torna pobre e banal é o fato de as pessoas enxergarem em um post a oportunidade de criarem uma imagem diferente da real. A rede social passou a ser um lugar onde finalmente se pode parecer o que não é e os outros dificilmente descobrirão a farsa.

Outro defeito é que nesse diálogo todos buscam somente ter razão. Na verdade, não existe diálogo. É resultado também do que vemos fora da tela do computador. Em casa, no trabalho, nas ruas ou mesmo na mesa de bar, raramente se tem uma conversa onde todos estão desarmados e abertos, dispostos a ouvir e a enriquecer a alma com o que o outro tem a oferecer. Em geral, todos estão preocupados em demonstrarem inteligência, parecerem descolados ou exibirem suas conclusões geniais acerca dos últimos fatos. Ao menor sinal de distração do nosso interlocutor, uma oportunidade qualquer como uma pausa para o outro respirar, aproveitamos para colocar pra fora o que temos pra contar. Não existe diálogo, e sim monólogos revezados. Sintoma da falta de tempo que agride o mundo. Voltando às redes sociais, se eu falo o que penso e um outro defende algo diferente, não discuto. Tento ridicularizar o que considero como meu “rival”. Qualquer tema se torna razão de disputa e embate. E o mais irônico é que as pessoas que conversam ali se chamam de “amigos”!

Por isso que escrever e tirar da gaveta nesses dias parece totalmente desnecessário. Penso que ao compartilhar um pensamento, ou me julgarão prepotente ou procurarão uma contradição entre as linhas para me apontar o dedo ou acharão que estou fazendo de conta ou arrumarão uma desculpa qualquer para criticar o que disse e parecerem mais inteligentes do que eu. Ou a hipótese mais provável de todas: ignorarão por completo a minha tese, pois são tantas opiniões jogadas ao vento que ninguém tem tempo ou interesse em acompanhar todas elas.

Por tudo isso, cheguei a pensar em aposentar meu eu-escritor. E jogar seus textos todos para dentro da gaveta. Mas isso seria o mesmo que sufocá-lo até a morte, como disse no início desse texto. Na falta de assunto, vou orientá-lo a escrever sobre o amor. Pois sobre esse tema quase ninguém mais escreve e dificilmente será o centro de uma discussão polêmica. Então é isso! Até esse tempo esquisito passar, vou guardar minhas impressões sobre o mundo e falar só sobre o amor.

Tropeços

Já tentei trocar os sapatos
Amarrar o cadarço
Andar descalço
Já tentei dar a mão
Ir rente ao chão
Me apoiar na parede
Ou no corrimão

Já tentei usar bengala
Muleta e andador
Já tentei segurar a dor
Prender o ar
Já tentei de tudo
Mas a cada passo na calçada
É um tropeço meu
No meio do
Nada

Nessa vida estou aprendendo a caminhar
(e na queda nunca encontro o chão)

sábado, 5 de setembro de 2015

A Foto

Foi durante aquele fazer nada, quando tiramos um tempo para ver as últimas atualizações das redes sociais, com postagens irrelevantes a respeito de assuntos desimportantes, que vi a foto. Serviu como um despertador. Acordei do transe, engoli seco, a barriga gelou. A foto, que há pouco chocara o mundo inteiro, naquele instante me chocava também. Até aquele momento, não sabia nada a respeito das circunstâncias, mas a dor pelo soco no estômago estava bem clara. A imagem era também um grito mudo e ao mesmo tempo ensurdecedor. Um bebê, de apenas três anos, sem vida deitado na praia, de frente à água rasa do mar. Definitivamente algo estava muito errado naquela cena. Fui procurar saber do que se tratava.

Me deparei com a história de Aylan Kurdi, um menino sírio nascido durante a guerra e que morrera tentando fugir dela, ao lado de sua família. Eles eram de Kobane, cidade que ganhou destaque por ter sido palco das violentas batalhas entre militantes extremistas muçulmanos e forças curdas no início do ano. Tentavam atravessar o mar em busca de uma vida melhor, no Canadá, onde tinham parentes. Nessa tentativa de fuga, apenas o pai, Abdullah Kurdi, sobrevivera. Além do menino Aylan, também seu irmão de cinco anos e a mãe haviam sido derrotados pelo mar e não conseguiram completar a viagem.

Sabemos que muitas crianças morrem todos os dias, em todos os lugares do mundo. Vítimas de maus tratos, da fome, doenças e violência. Então, por que a foto de Aylan Kurdi nos choca tanto? É pela roupa intacta – a camisetinha vermelha e a bermudinha azul? (Por que ele não levanta?) É pelo entorno da cena, na beira do mar, lugar que serve de diversão para todas as crianças? (Certamente não é lugar para se morrer!) Me doeu tudo isso e também imaginar os momentos que antecederam a viagem da família síria. A esperança movendo os passos dos pais e dos dois pequenos, já esgotados da violência e do perigo enfrentados em sua terra natal. Certamente a mãe de Aylan o vestiu caprichosamente pensando que o trocar de roupa significava naquele instante também mudar de vida. Calçou os sapatinhos nos pés que, em breve, se tudo desse certo, pousariam em uma terra mansa, melhor, onde se poderia caminhar livremente, eternamente, sem medo. A camisetinha, a bermudinha e o sapatinho pousaram intactos na areia branca, protegendo o corpo pequenino de Aylan, sem vida.

Quem matou Aylan não foi o mar. Quem matou Aylan não foi o Canadá, ao negar abrigo. Quem matou Aylan não foi a guerra. Não foi o extremismo religioso. Foi o conjunto de tudo isso, e também fui eu. E você. Quem matou Aylan fomos todos nós. O grande muro que separa as nações ricas das pobres é o mesmo que nos separa. Vivemos na era do individualismo e da indiferença com o outro. Não aceitamos o que é diferente de nós. O imenso fosso que impede que as vítimas da violência dos países em guerra ingressem em território pacífico é o mesmo que impede que alguém tenha livre acesso a todos os territórios da cidade que também é sua, é de todo mundo. Na sociedade que construímos, alguns são condenados e têm suas vidas tiradas simplesmente porque estavam “no lugar errado e na hora errada” (não podemos nos esquecer da recente chacina da grande São Paulo).

Quem matou Aylan fomos todos nós porque fracassamos como humanidade. Temos que reconhecer. Construímos um mundo injusto, uma sociedade discriminatória e excludente. Estamos de passagem pela Terra e, no entanto, nos achamos donos dela e no direito de determinar limites e levantar muros e fronteiras. Condenamos o outro à morte para não termos que vê-lo poluir o nosso mundo. Você pode achar que não tem nada com isso, mas tem. Você pode pensar que tudo isso está muito distante, do outro lado do mundo, mas não. Experimente olhar um pouco para o lado e certamente terá um Aylan por perto. Por isso penso que é tão importante que a foto de Aylan se espalhe. E doa em mim e em você. Somente assim paramos para refletir.

Tenho que admitir que sofro do mal do otimismo, daquele que cega. Então acredito piamente que ainda vamos evoluir como humanidade, como sociedade, como mundo. Tenho plena confiança de que chegará o dia em que todos poderão circular livremente por todo canto sem ser vítima de preconceito por sua origem, raça, cor ou opção sexual. Tenho fé de que um dia o mal deixará de existir. Mas enquanto isso não acontece, peço que a foto de Aylan se espalhe em todo canto do nosso planeta e comova o mundo.

Que os homens não contenham as lágrimas. E que as mulheres encarnem a Angélica, de Chico, e só queiram embalar Aylan, que já mora na escuridão do mar.