sábado, 16 de setembro de 2017

A Amazônia Vive


Na noite de ontem, em um discurso emocionado durante a abertura do Rock in Rio, Gisele Bündchen lançou o projeto mundial Believe Earth/Amazônia Live, que visa dar destaque sobre questões ambientais, como a proteção da floresta amazônica. Não é de hoje que Gisele batalha em defesa da Amazônia, mas a questão ganhou mais evidência devido à posição do presidente Michel Temer de sustentar projetos de redução de áreas protegidas e a crescente argumentação de Gisele contra ele. Recentemente fiz uma viagem à Amazônia e posso dizer que me identifico com a causa da modelo. O choro dela é também o meu. Apesar de breve, a viagem se provou transformadora e imensa em seus significados. E aqui faço um relato do que vi e vivi. Relato que é também um convite para que mais pessoas tentem conhecer e ver a floresta com seus próprios olhos.

A VIAGEM

Aos poucos, o barco vai enchendo. De pessoas e coisas e bichos. Me sinto um completo estranho ali, ao lado dos ribeirinhos, das galinhas, dos bujões de gás e outros tantos pacotes cujos conteúdos não consigo identificar. Estou no Distrito de Laberinto, a aproximadamente 55 km de Puerto Maldonado, capital do departamento de Madre de Diós, Peru, região próxima ao Acre. O rio leva o mesmo nome do departamento, que é o equivalente ao estado no Brasil. Estou prestes a iniciar uma grande aventura por sete dias na Amazônia Peruana. Para mim, uma jornada cheia de significados.

O caminho que percorri para chegar ali é bastante irônico. Principalmente pelo fato de eu só vir a encarar essa viagem depois de sair do Brasil. Hoje moro no Canadá, onde para grande parte das pessoas a Amazônia não passa de uma peça de ficção. De onde eu venho, não é muito diferente. Apesar de 60% de toda a floresta estar em território brasileiro, a imensa maioria das pessoas de lá também a tem como algo abstrato. No Brasil, sabemos sua localização, suas características e reconhecemos sua importância. Muitos a defendem com unhas e dentes, alegando ser o pulmão do mundo e outras coisas mais. Mas a imensa maioria nunca conseguiu combinar condição e coragem a fim de olhar um pouco mais de perto a realidade da floresta. Penso que a distância da Amazônia para os canadenses e brasileiros não é assim tão diferente.

Depois de duas horas de espera, o barco parte, lotado. Ao meu lado, uma senhora improvisa um tanque cheio de gasolina como assento. Vamos adentrando a mata, cada vez mais a fundo, cada vez mais o desconhecido se desenhando a minha frente. Vejo um mundo de água por todos os lados, a floresta nos dando os braços em cada margem do rio, como que formando um abraço de boas-vindas. No caminho, vamos avistando animais, árvores e plantas das mais variadas espécies e outras coisas que nos comovem, mas para o mal. Estamos em uma área onde há muita mineração de ouro, grande parte das operações, ilegais. A atividade mineradora é a principal responsável pelo desmatamento na região. A parte que sangra na floresta também sangra dentro de mim. É impossível agora não pensar em Michel Temer e no Brasil. Se a recente decisão do presidente de sacrificar uma área da Amazônia onde caberia a Dinamarca inteira em prol da mineração causa revolta e faz nascer campanha nas redes sociais, para quem já esteve na floresta e a viu com os próprios olhos, a dor é maior.


A viagem de barco dura aproximadamente cinco horas. São muitas paradas e em cada uma delas o ritual se repete. Alguns passageiros saltam para fora levando seus pertences com a ajuda de um dos donos do barco, que também estende uma tábua de madeira entre o barco e a terra, para auxiliar no desembarque. Fico pensando a que rumo aquelas pessoas estão indo, já que do assento onde estou não consigo enxergar nada do outro lado, nem casa, nem algo que se assemelhe. Elas vivem ali e, para mim, é uma realidade difícil de digerir. Percebo também que o significado da Amazônia para mim, um completo estrangeiro, e para as pessoas que ali habitam, é separado por um mundo do tamanho da própria floresta. O rio, para eles, é estrada. A floresta, moradia e fonte de sua sobrevivência. As questões ambientais discutidas por nós não os alcançam. E é com naturalidade que o rio vira lixeira. Assisto incrédulo aos arremessos de plásticos e outras sobras dentro do rio. Me incomodo mas fico em silêncio. Sei que a floresta para mim não é a mesma para as pessoas que me acompanham naquele barco.

Depois de cinco horas de viagem, sete no total com as duas de espera, finalmente chegamos à estação biológica Los Amigos, eu e minha esposa, responsável por eu estar ali. Por dois meses a estação se transformou em sua casa, onde ela trabalha pesquisando sobre o comportamento dos primatas que ali habitam. Saltamos do barco com o sol já baixo e a noite ganhando espaço. Adentramos a mata enquanto ao fundo o som do barco desaparece, já a caminho de outro destino. Para alcançar a estação, ainda precisamos subir quase trezentos degraus. Depois de toda a saga para chegar ali e com um mochilão pesando nas costas, essa não é das tarefas mais fáceis. As árvores se unem acima da cabeça formando um teto e a escuridão toma conta. Ao contrário do que se pode imaginar, a mata é tão barulhenta quanto uma metrópole, principalmente à noite. Os sons é que são diferentes. Buzinas, gritos e músicas são substituídos pelos sons dos animais que ali habitam. Recupero o fôlego e enfrento a escada, cujo fim ainda não vejo.

A CABANA

A estrutura da estação biológica é fantástica, quando penso que estamos no meio da floresta amazônica, no lugar mais ermo em que já estive em toda a minha vida. Mesmo assim, estamos muito distantes do conforto da cidade e de qualquer sinal de luxo. Um gerador é a fonte de energia elétrica, que é desligada automaticamente todos os dias pontualmente às 9 da noite. Os banhos são gelados e a comida limitada. Há bangalôs para os turistas, porém todos estão vazios quando chego. Há aproximadamente 15 pessoas hospedadas ali, nos outros quartos, todos envolvidos com algum trabalho de pesquisa científica, ninguém a turismo ou passeio. São americanos em sua maioria. Biólogos, pesquisadores ou trabalhadores voluntários. Ao chegar, sou apresentado a cada um deles rapidamente, sem conseguir disfarçar o cansaço.

O próximo passo é caminhar até a cabana onde ficaremos hospedados pelos próximos dias. O lugar fica afastado dos quartos onde os outros estão e da estrutura central da estação e, devido à combinação entre o desconhecimento da floresta e a exaustão que sinto, o caminho até lá se torna bastante assustador. Nos pés, galochas, para me proteger das cobras, aranhas e outros bichos peçonhentos. Aprendi que essa é a regra número um da floresta – galochas nos pés durante todo o tempo. Na cabeça, uma lanterna para iluminar o caminho. O lugar é simples, apenas um cômodo com duas camas. Deixo minha mochila e caminho até o banheiro para lavar o cansaço. O banheiro é separado, a cerca de 50 metros da cabana e é preciso enfrentar a noite para chegar até lá. Na escuridão, tomo um banho gelado ao som da floresta, que me recebe barulhenta e intimidadora. Talvez já para mostrar o quão insignificante eu era ali.


Mais tarde, um pequeno alvoroço começa a se formar próximo a cabana. Alguns pesquisadores se juntam e todos olham para o topo de uma árvore. Demoro para entender o que se passa. A escuridão, a infinidade de sons não identificados e o excesso de mosquitos fazem com que eu deseje uma cama mais do que qualquer outra coisa naquele momento. Pouco depois outras pessoas chegam correndo com lanternas e câmeras e entendo o que provocou a comoção. No topo da árvore enxergo um bicho-preguiça pendurado, alheio a confusão abaixo. Todos estão encantados e emocionados com a visão e eu, aos poucos, começo a entender a real dimensão daquilo. Não estamos em um zoológico ou em um safari. Avistar uma preguiça é algo raríssimo na floresta e todos me alertam disso. Um dos trabalhadores da estação me diz: “você tem sorte, Felipe, na sua primeira noite aqui!”. Eu concordo, acenando com a cabeça. Sim, só de estar ali, já me considerava sortudo.

DESBRAVANDO A FLORESTA


Às 6h o relógio desperta e essa seria a rotina pelos próximos dias. Depois de levantar e calçar as galochas, vamos ao refeitório, onde todos estão tomando café, com exceção daqueles que já estão trabalhando na mata. Bom dia se mistura com buenos dias que se mistura com good morning, a fome e o sono àquela hora da manhã sendo o único idioma totalmente comum a todos. As três refeições diárias são preparadas com carinho por dois cozinheiros peruanos. Não temos pão nem queijo e qualquer fruta é um pouco como luxo. Também não é incomum termos arroz de café da manhã e, para mim, brasileiro, isso é esquisitíssimo. Agradeço aos dois peruanos gastando todo o meu espanhol (gracias!) e me junto aos outros, à mesa.

Minha missão ali é acompanhar minha esposa como uma espécie de assistente, em seu trabalho de pesquisa. Durante todos os dias, depois do café, é a nossa hora de sair para desbravar a mata à procura dos primatas para observações e registros. Na região da estação biológica, a floresta é toda dividida por trilhas e isso facilita muito o trabalho de iniciantes como eu, apesar de não diminuir os riscos. Durante as caminhadas, sinto um frio na barriga constante, já que a qualquer momento poderíamos topar com cobra, onça ou um macaco menos amigável. E isso aconteceu algumas vezes. Por sorte, nenhuma situação avançou mais que um susto. Ao todo, vi de perto sete espécies diferentes de macacos, duas onças de pequeno porte, um bicho-preguiça, um queixada, uma anta, um sapo gigantesco, um jacaré, uma irara e muitas, muitas aves. As boas-vindas dadas pela preguiça na minha primeira noite, mesmo sem ela saber, foi fundamental para eu entender a real profundidade de dividir espaço com os animais nativos daquela floresta. Por isso, a cada encontro, uma emoção.


Ver todos esses animais de perto foi uma experiência completamente diferente pra mim, pois ali, no meio da floresta amazônica, o estranho era eu. Aquele era o habitat natural dos bichos que cruzaram meu caminho, e não o meu. É impossível comparar com um passeio de domingo no zoológico, por exemplo. É lindo e assustador ao mesmo tempo, pois aquela primeira impressão de que a floresta era imponente, se confirmou ao longo da minha jornada. Era preciso respeito. A Amazônia me lembrava disso todas as noites, quando eu pegava no sono ouvindo os passos de animais não identificados rodando minha cabana. Teve uma noite em que acordamos para ir ao banheiro e avistamos uma anta, imensa, próxima a nossa cabana. Trocamos olhares e decidimos fazer xixi ali mesmo, no mato, para não nos aproximarmos demais. Teve a vez que fomos recebidos na nossa cabana pelos gritos ensurdecedores de um grupo de bugios, lindo e, claro, intimidador. Sem falar nas várias trocas de olhares com os macacos-aranha em que eu me recusava e fazer qualquer movimento aguardando ele desviar o olhar, como um sinal de aprovação.

LAZER E DESPEDIDA

Durante meus dias na Amazônia, nas horas de folga os recursos para diversão eram simplórios perto do que temos à disposição em casa. Para se ter uma ideia, o auge foi uma partida de vôlei com uma bola um pouco murcha em um campo improvisado. A divisão desigual dos times, jogando três contra dois, mostrava o quanto o resultado ali não tinha importância. Rimos muito e descontraímos aquela tarde quente. Lembro com carinho desse momento.

Jogamos muito “Banana”, aquele jogo de peças em que você tem que ir montando as palavras como num caça-palavras e quem terminar com as peças primeiro, ganha. A conversa fiada recebendo o verdadeiro foco. Em uma das tarde livres, eu e minha esposa fomos até o Cocha Lobo, um lago próximo da estação e ficamos rodando de canoa, prestando atenção na vida a nossa volta. Vimos morcegos e aves incríveis! Por vezes também paramos para ver o pôr do sol lá de cima, reconhecendo a beleza.


Então, se você me perguntasse, sem dúvida diria que essa experiência mudou minha vida e acho que mudaria a sua também. É sobre rever a percepção de tempo, em um lugar onde o relógio parece passar mais devagar. É sobre experimentar viver, mesmo que por um curto período, com o mínimo necessário. Sem internet, Netflix, bares, festas, bebidas, carros. É sobre se perceber pequeno diante de um mundo tão vasto e desconhecido como o da floresta. É sobre reconhecer essa nossa pequenez humana em comparação a dos animais no ambiente que deveria ser deles e de ninguém mais. É sobre se divertir com pouco e se despir de qualquer vaidade. É sobre ser mais igual. É sobre crescer.

E é também sobre voltar para a sua rotina na “civilização” e notar que talvez você não precise de tantas roupas assim, de um carro mais novo, de um celular de última geração. É sobre voltar com o ego menor e a visão de mundo amplificada. É sobre ler uma notícia envolvendo a floresta ou os animais e se importar. Verdadeiramente se importar e tentar fazer algo a respeito. É sobre diminuir as distâncias entre os mundos. É sobre plantar uma semente e deixar a árvore crescer. Mesmo que simbolicamente. Mesmo que dentro de você.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Barata Ribeiro, 716


Tem aquele filme do Woody Allen em que o protagonista, durante uma viagem a Paris, se lança solitário por passeios noturnos pela cidade-luz e descobre, ao badalar da meia-noite, ser transportado para a década de 1920, época que considera a melhor de todas. Ao embarcar nessa viagem ao passado, ele se encontra com artistas e intelectuais que admira e com os quais já havia tido contato pelos livros e demais obras, já que um encontro pessoal, até então, era impossível devido ao muro do tempo. A viagem é regada a festas com F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Salvador Dali, entre outros.

Gostaria de ser esse personagem de Woody Allen e viver uma experiência parecida. Mas, sem dúvida, meu destino seria outro: Rio de Janeiro, início da década de 1960. Mais precisamente, a Rua Barata Ribeiro, bairro de Copacabana. Número 716. Para ser ainda mais exato: o apartamento de Domingos de Oliveira.

Explico.

Assisti há alguns dias o último filme do diretor carioca, o excelente Barata Ribeiro 716. Nele, Domingos resgata os dias em que viveu no famoso apartamento em Copacabana, no início dos anos 1960. É um filme autobiográfico, portanto. Nessa época, pré-golpe militar, Domingos lotava seu apartamento e emendava festas regadas a muito álcool. No filme, Domingos é Felipe, interpretado por Caio Blat, que está genial no papel. Felipe tenta escrever um livro enquanto vive bêbado, de álcool e de amor, apaixonado pelas belas meninas que frequentam suas noitadas.

No filme, Felipe filosofa. Felipe chora. Felipe sofre de amor. Felipe se apaixona de novo. Pelas mulheres e pelos seus amigos. Felipe vive. Intensamente. De acordo com o que acredita. Por mais que o caminho não lhe pareça plano, ele segue em frente. Pois para ele, faz todo o sentido. O resultado é que você não vê saindo da tela um filme óbvio, tampouco uma história linear. O que você vê saindo da tela é amor. Isso mesmo e simples assim. Amor pela vida. Pela vida e tudo o que ela é capaz de nos oferecer. Amor daqueles que embriagam.


Domingos é um entusiasta da vida e deixa isso explícito em todas as suas obras. Por isso, retratando ele mesmo no auge de sua juventude, seria natural o nascimento de um personagem como Felipe. O mesmo amor que ele sentia nos anos 1960 ele mantém intocado até hoje, caso contrário não seria possível ter feito o filme que ele fez. Ao menos não com a sinceridade com que a história chega até nós. Domingos está no auge dos seus 80 anos e mantém sua juventude intacta, é impressionante e inspirador.

Dividindo com a gente essa passagem de sua história, Domingos nos lembra que as pessoas, mesmo sendo diferentes, sempre têm muito a oferecer e ensinar. Não precisamos pensar da mesma forma para compartilharmos a experiência da vida. O mundo poderia se parecer um pouco mais com o seu apartamento na BR: cheio de pessoas com os mais diferentes gostos, filosofias e formas de vida e que, apesar de não serem iguais, permanecem unidas. Essa é uma lição valiosa em tempos de polarização e individualismo. Dias de “pensou diferente, virou meu inimigo”.

Por isso, se eu pudesse, viajaria no tempo como no filme de Woody Allen. Com um bloquinho na mão, escutaria Domingos (ou Felipe), filosofar sem parar e não perderia uma frase. E daria um recado a ele. Que ficasse tranquilo, pois iria conseguir aquilo que estava buscando naquele momento: viver de sua arte. Contaria que, anos mais tarde, ele mesmo faria um filme narrando aqueles dias e influenciaria outros jovens, de uma época tão distante. E muito mais do que isso, ensinaria a gente a viver melhor.

Depois disso, brindaríamos a vida. E brindaríamos o amor!

P.S.: agradecimento especial à produtora do filme, Renata Paschoal, pois sem ela não teria conseguido assistir ao filme estando tão distante do Brasil. Obrigado, Renata! Um brinde a você, daqui das terras geladas do Canadá!

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sobre Senhoras e Cartas

No prédio onde moro trabalham duas senhoras muito simpáticas. Uma delas aprendeu com uma vizinha minha, também brasileira e que mora aqui há mais tempo, que nós brasileiros nos cumprimentamos com abraços e beijos, diferente de quase todos os canadenses que se limitam a um “olá, como você está?”, muitas vezes evitando qualquer contato físico ou se restringindo a um aperto de mãos. Descobrir que eu e minha esposa também somos brasileiros bastou pra que essa senhora passasse a fazer questão de nos cumprimentar com abraços e beijos calorosos.

Me ocorre agora que, talvez, grande parte desse jeito mais frio dos canadenses seja por desconhecimento a uma forma diferente de comportamento. Para essa senhora, pelo menos, pareceu uma descoberta feliz saber que poderia receber um abraço apertado ao invés de um cumprimento protocolar.

A outra senhora também é muito simpática. E tagarela. Frequentemente a encontro nos corredores do prédio, a cumprimento e, se eu der espaço, ela engata alguma história. Dia desses desci para jogar o lixo e, voltando para o apartamento, passei por ela, que estava com uma carta na mão e o olhar distraído sobre o envelope. Ao me ver, me cumprimentou, como sempre, comentou sobre o clima, como quase sempre, e então voltou sua atenção para a carta que segurava, pensando sobre algo para me dizer.

Contou então que tinha se mudado há muitos anos para Calgary, vinda de outra região do Canadá, deixando muita gente para trás. Dos parentes mais velhos, segundo ela, nenhum se lembrava de entrar em contato, simplesmente por esquecimento, problema de memória mesmo, comum aos mais velhos. Todos, com exceção de uma prima que havia escrito a carta que agora ela tinha em mãos. Essa prima fazia isso sempre, atualizava sua vida por carta. Era rotina entre as duas.

Você já sentiu saudade de algo que nunca viveu? Pois eu senti naquele momento. Saudade de me corresponder por carta. Tudo bem, não sou tão novo assim. Cheguei a viver um pouco disso. Lembro de receber cartas da minha mãe, por exemplo, e até de alguns amigos e namoradinhas. Inclusive, tenho algumas guardadas até hoje. Mas se tratava de algo opcional, não obrigatório. Tínhamos telefone e internet. Enviar uma carta era mais uma questão de charme, romantismo, algo assim. E, pelo que sei, até isso acabou. Evoluímos primeiro a ponto de não mais precisarmos da carta e depois a ponto de não mais querermos a carta.

Faz sentido. Se você tem Whatsapp, e-mail, Facebook, Skype e outras dezenas de opções mais fáceis de comunicação, qual o sentido de gastar tempo escrevendo uma carta que demorará dias para chegar? Sem contar o fato de que, provavelmente, quando a carta finalmente alcançar o seu destinatário, aquilo que você contou já vai ter ficado velho. Imagina então se a resposta vier também por carta? A pessoa vai comentar aquilo que nem faz mais sentido.

É estranho até pensar como um dia pudemos viver assim, sem termos outra opção. Mas confesso que achei bonito esse costume da senhora do meu prédio por ser, talvez, um saudosista em algumas questões. Prefiro jornal de papel ao digital e vitrola ao Spotify. Mas isso não quer dizer que eu queira abrir mão do Whatsapp. Não. O que tenho claro em mim é a convicção de que existem coisas que cabem melhor em uma carta escrita a mão do que em uma mensagem digitada no computador ou no celular.

Você pensa mais sobre o que dizer, escreve com mais capricho e cuidado e se aprofunda mais no que tem pra contar. A carta é um jantar especial com conversa a dois, enquanto o papo no celular é um encontro informal com diálogos mais superficiais. Cada um tem seu espaço. Sem contar o fato de que a carta se transforma quase em um documento. Você guarda como lembrança. Fui olhar agora, por curiosidade. A carta que a minha mãe me enviou e que tenho guardada até hoje é de 1996, ou seja, já tem mais de 20 anos!

A senhora do meu prédio encerrou aquele papo com um conselho simples, mas muito difícil de seguir. Disse que devemos manter contato com os parentes e amigos enquanto estamos aqui, pois depois que formos embora não será mais possível. Guardei aquela lição bem guardada. Como as cartas da minha infância.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O Vento Quente das Montanhas


No filme O Regresso, aquele que ficou famoso pela cena do urso devorando o Leonardo di Caprio, tem outra cena em que o personagem de Leo observa uma avalanche descendo de uma montanha distante. Tenho duas curiosidades sobre essa passagem. A primeira é que o diretor do longa, o mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu, criou a avalanche de verdade para gravar a cena, ao invés de produzi-la em estúdio com efeitos especiais. Usando alguns explosivos ele fez um mundo de neve despencar montanha abaixo, tornando a cena bem mais realista e... perigosa, talvez. A segunda curiosidade é que a montanha em questão fica bem aqui, no quintal da minha casa. Ou quase isso. Calgary se localiza na província de Alberta, na região das Montanhas Rochosas do Canadá. A tal cena foi gravada na Fortress Mountain, na mesma província onde atualmente habito. Agora me ocorre outro pensamento. O Regresso, justamente esse filme que teve algumas cenas gravadas em Alberta, deu o primeiro Oscar de melhor ator ao Di Caprio, encerrando o famoso jejum. Menos de um ano depois da premiação, me encontro vivendo aqui. O que isso significa?

Com certeza nada.

Continuando, então.

Apesar de poder avistá-las da cidade, ainda não tive oportunidade de conhecer as tais montanhas. Dizem que a paisagem é de tirar o fôlego. Mesmo assim, sem conhecê-las, já tenho ideia de seu valor. Pelo que me explicaram alguns canadenses, é de lá que sopra um vento chamado de “Chinook”. Um vento salvador, podemos dizer. Seu nome deriva de uma palavra na língua da tribo indígena Chehalis e seu significado seria algo como “comedor de neve”. E é uma excelente definição: vento comedor de neve. É mais ou menos isso mesmo que ele é.

Algumas vezes, durante o rigoroso inverno daqui, o tal vento aparece para aliviar um pouco o frio. Li que, em uma hora, a temperatura pode ser elevada em até 5º, algo assim. É exatamente o que vem acontecendo nas últimas semanas. Ontem, por exemplo, o termômetro passou dos dez graus positivos. Ou seja, inverno a la Brasil. Um alívio e tanto para quem estava enfrentando temperaturas próximas ao – 20º. Inclusive boa parte da neve aqui na frente de casa derreteu.

Já posso dizer que tenho um grande amigo aqui em Calgary: o tal do Chinook.

Assim que ouvi alguns canadenses me explicando o fenômeno do vento comedor de neve e apontando ele como responsável pelo fato de o inverno de Calgary ser mais suportável do que em outras regiões do Canadá, me peguei pensando nele como uma excelente metáfora da vida. Acho que todos nós deveríamos estocar um pouco desse vento, como diria uma amiga nossa. Para nos aquecer durante os rigorosos invernos que a vida nos apresenta.

Se o relacionamento deu uma esfriada, se não encontra motivação no trabalho, se a cidade em que vive parece não ter mais nada para oferecer, se nada na TV lhe prende atenção, se a vida está um tédio, use um pouco do vento para aquecê-la. Se está passando por uma fase mais difícil, uma separação, a perda de um ente querido, um problema financeiro, recorra ao vento. O vento pode ser o que você quiser e, na verdade, só você sabe o que ele deve ser. Um jantar especial com sua esposa, um projeto novo no trabalho, uma mudança de cidade, o renascimento daquele plano distante do qual você tinha desistido, uma viagem, uma visita aos seus pais, um passeio com seu irmão, um trabalho voluntário, um novo curso. Pode ser tudo, enfim. Às vezes a vida parece ser um inverno interminável e o que nos resta é aproveitar o vento quente que não precisa vir das montanhas. Nós mesmos podemos soprá-lo.

Afinal, no tédio da vida também é possível haver poesia. No inverno também pode existir verão.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

As ruas daqui e as ruas de lá

Aqui no Canadá voltei a caminhar. Não exatamente por exercício físico nem para me manter ativo. Nada disso. Voltei a fazer das minhas pernas meu principal meio de transporte.

Olho no mapa. Se o local onde preciso ir está a menos de cinco quilômetros de distância, calço as botas e me lanço nas calçadas cobertas de gelo. Só se for muito mais distante que isso que recorro ao transporte público. Hoje, por exemplo, caminhei treze quadras para ir e treze quadras para voltar do meu destino. Estava um clima agradável mais cedo, chegou a fazer 5º, eu acho, então cumpri a tarefa sem maiores apertos.

Isso é outra coisa curiosa. Tenho observado que o corpo se adapta rápido ao seu novo ambiente. Até pouco tempo, residindo em uma das cidades mais quentes do Brasil, com 5º provavelmente eu estaria usando todo meu estoque de casacos e não sairia de dentro da coberta, se tivesse escolha. Aqui, onde no inverno as temperaturas normalmente estão abaixo de zero e não raro atingem -30, 5º graus é quase verão. É verdade. O corpo realmente sente isso. Mas estou desviando o assunto.

Ir de um lugar para outro caminhando e fazer disso uma rotina me fez lembrar a infância, é isso que quero contar.

Recordo o caminho exato até uma das escolas em que estudei. Morava relativamente perto, uns quinze minutos a passos médios. Saía de casa à esquerda, virava à direita, depois à direita de novo e ia embora. Algumas quadras depois, à esquerda de novo e já estava na rua da escola. Fazia esse caminho a pé quase sempre.

Lembro também de outra época, em que costumava ir com uma das minhas irmãs de bicicleta até outra escola em que estudei. O maior perigo era quando chovia e as ruas, que eram de terra, viravam um lamaçal só. Eu não guiava muito bem, então não era incomum eu perder o controle, esbarrar em algum obstáculo invisível e cair. Quando encontrava um mar de lama lá embaixo, o estrago era imenso. Você pode imaginar o que acontecia com o uniforme branco. Outro risco, naturalmente, eram os carros. Não sei como passei ileso por esse período, sem sofrer um acidente pior, porque realmente guiava mal.

Com o passar dos anos, fui deixando esse hábito de lado, assim como tantos outros brasileiros. Pelas histórias dos jornais, pelas conversas com os vizinhos, o medo de sair a pé em uma grande cidade brasileira, é totalmente embasado. Se você não conhece alguém que foi assaltado nos últimos meses, é um privilegiado. O descaso do governo com a segurança pública não nos tirou a liberdade de ir e vir, nos tirou a liberdade de ir e vir sem medo. Porque você até se arrisca, mas não usa celular em público, evita determinadas regiões e horários e, claro, sente medo enquanto está exposto. A violência no Brasil nos obriga a sermos paranoicos.

Infelizmente, é assim. No lugar de onde eu venho e que chamo de casa dificilmente faria o que faço aqui. Uma coisa simples e prazerosa, e que deveria ser um direito básico. Hoje pensei em tudo isso enquanto caminhava. Justamente porque, ao caminhar sem paranoia, meus pensamentos tomam formas e viajo, vou pra onde Deus quiser... como diz a canção. Canção que, aliás, eu adorava escutar quando era criança.

As ruas daqui, pra mim, têm gosto de infância.